Que o prazer seja permitido

Américo Castilla - Especialista em museus

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Em uma sociedade onde o espaço público nem sempre é seguro, o museu tem a vantagem de ser como um oásis”
MS Cristoff / DIVULGAÇÃO
“Em uma sociedade onde o espaço público nem sempre é seguro, o museu tem a vantagem de ser como um oásis”

Diretor do Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires entre 2005 e 2008, Americo Castilla é uma referência em gestão desse tipo de equipamento cultural. Na terça-feira, ele vem a BH para participar do I Simpósio Internacional de Educação em Museus. Por e-mail, o especialista falou sobre desafios a serem superados para tornar mais rica a experiência da visita.

Muitos museus sofrem com a baixa audiência. Para você qual o posicionamento que os dirigentes desses museus devem adotar para evitar que isso aconteça?

Os museus que têm baixa aceitação são aqueles que não renovaram a sua missão e as suas estratégias de adaptação para uma melhor comunicação com seus convidados. Em uma sociedade onde o espaço público nem sempre é seguro, o museu tem a vantagem de ser como um oásis que facilita conexões de memória diversificadas e até mesmo a capacidade de reconfigurar reflexões sobre si mesmo e seus semelhantes. Este objetivo não será alcançado com a exibição de um objeto em uma caixa de vidro. Demanda estratégias de iluminação, por exemplo. É um equilíbrio delicado entre um estudo científico rigoroso dos conteúdos e o trabalho cênico para colocar os objetos expostos em destaque. Se o primeiro predominar, a exposição vai parecer erudito, mas, ao mesmo tempo, incompreensível para quem não é especialista. Se a parte cênica predominar, pode acontecer a banalização do conteúdo. Em ambos os casos, o objetivo não é alcançado.

Você acha que os museus devem investir muito em divulgação para garantir a presença de um público?

O museu é um complexo sistema de comunicação que não produz notícias como fazem os meios de comunicação, mas propõe uma plataforma para o intercâmbio de experiências, de transações de sentido. O museu pode deixar de informar em alguns casos, mas não pode deixar de estabelecer um vínculo emocional, social e educacional, propondo uma construção de significados, no qual o observador é também um ator e pode se dar ao luxo de duvidar, e no curso de sua própria aventura intelectual, também abrir horizontes mais amplos de conhecimento cultural. Hoje em dia, existe as redes sociais como meio de participação dos público com o museu para trocar de informações.

É cada vez mais comum que os museus sejam equipados com aparelhos tecnológicos que promovam a interação entre o visitante e as obras como forma de estimular as visitas. Para você essa interação é essencial para um museu nos dias de hoje?

Ao contrário das disciplinas artísticas, a ciência é por definição experimental. E os museus de ciência com efetivos equipamentos tecnológicos de interação facilitam a compreensão e promovem a curiosidade do público. Museus que já conseguem compreender a mudança radical nos hábitos de consumo cultural são os mesmos que reformulam suas estratégias e propuseram modos participativos, como será exemplificado na apresentação que farei em Belo Horizonte.

Há iniciativas que envolvem a “levar o museu” para fora dos muros. Você está familiarizado com este tipo de iniciativa? Qual é a sua opinião?

O conceito de espaço público foi ampliado. Se refere tanto a praças, ruas e estádios quanto às redes sociais virtuais. Um museu “aberto” deve estar ciente dos diferentes comportamentos das pessoas nessas áreas. Há exemplos de atividades de museus em ambos os campos, boas e ruins, mas muitas vezes corre-se o risco de banalizar a oferta de espaço público e misturá-lo ao mundo da publicidade. Ou ainda não diferenciar a singularidade e a excepcionalidade da natureza das coleções de museus em atenção fragmentada através de meios virtuais. Um bom exemplo da mistura entre ambiente públicos e virtuais foi executado pelo museu Rijksmuseum, em Amsterdã, em sua reabertura. Vale a pena ver o vídeo http://bit.ly/reaberturamuseu.

A falta de recursos é um problema enfrentado por vários museus no mundo. Aí entram a importância das políticas públicas e das contribuições privadas. Há hoje um modelo ideal para um museu obter suporte financeiro?

Nos Estados Unidos o modelo é de museu privado, na Europa e em muitos países da América Latina, o Estado tem sido o responsável pela criação dos museus como uma forma de reforçar ideias de nação. Nesse sistema, os museus foram perdendo prioridade nos orçamentos dos Estados à medida que as identidades sociais se diversificaram e, assim, as estratégias políticas para adesão popular também mudaram. Tornou-se mais interessante se associar a um clube de futebol, por exemplo. Como se trata de coleções públicas e da responsabilidade do Estado pela igualdade de acesso e de oportunidades culturais, ele não pode libertar-se completamente. Dessa forma, surgiram as formas híbridas, que tornam os museus viáveis e possíveis nos dias de hoje.

Quais são os museus que você mais admira atualmente?

Acima da arquitetura espetacular ou dos grandes nomes dos artistas que têm suas obras em determinados museus, eu prefiro aqueles que são provocantes. É o caso do Victoria & Albert Museum, em Londres, que é essencialmente de objetos, mas muito grande e convidativo. Esse é o meu favorito. Há outros que me atraem pelo modo com que se dirigem aos visitantes, como o Museu de História de Minneapolis, nos Estados Unidos.

Qual museu brasileiro você mais gosta e por quê?

O Brasil tem uma variedade de museus muito grande, mas eu não apontaria para nenhum em particular. Pela sua originalidade e proposta, eu diria que o Inhotim é excepcional. Eu não consigo lembrar de um museu em qualquer outro país que uma empresa privada tenha realizado uma proposta tão ambiciosa.

Qual seria sua sugestão para que os museus brasileiros possam atrair mais público? A melhor coisa a se fazer é estudar os hábitos de consumo e equilibrar os mesmos com a missão do museu, que tem de ser constantemente atualizada. Além disso, é importante que todos os membros da equipe do museu participem da elaboração dessa missão. E tudo isso deve ser uma atividade constante.

O título da sua palestra em Belo Horizonte é “O Mal-estar nos Museus”. Qual o motivo da escolha?

O título refere-se à obra de Sigmund Freud: “O Mal-Estar na Civilização” (1930), que afirma que as instituições culturais restringem instintos associados ao prazer humano, como o jogo, o erotismo, a criatividade e até mesmo a agressividade. Utilizo dessa referência, pois foi o criador da psicanálise que viu o museu como uma fonte de informação sobre o passado, sem vinculação com a experiência do visitante atual. Assim, a apresentação que faço nesta conferência consiste em analisar as diferentes estratégias que os museus atuais propõem, de forma a orientar a experiência dos visitantes por um território poético, em que o prazer seja permitido.

Antes de trabalhar como diretor do museu, você era pintor, escultor e artista gráfico. Ainda exerce essas atividades? É possível ver alguns dos seus trabalhos em exposição?  Na verdade, eu expus na Bienal de São Paulo em 1987 e em alguns museus da Argentina estão lá as minhas obras. Mas antes disso era um advogado e fazendeiro. Agora dirijo uma fundação e crio cavalos. Creio que o homem contemporâneo é muito diferente daquele que trabalhava em uma só empresa e recebia um relógio ao cumprir 50 anos de trabalho. Hoje fazemos de tudo simultaneamente. Até podemos fabricar novas identidades virtuais pela internet se não nos alcança a realidade.

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