As surpresas de Kafka no dia de sua morte - parte II

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Passeando nos arredores de Praga, Kafka encontrou um ornitorrinco de braços dados com um porco-espinho, também conhecido por ouriço-cacheiro. – Boa-tarde, disse Kafka, sem estranhar os bichos, que pareciam bastante educados e não se assustaram ao vê-lo. – Boa-tarde, respondeu gravemente o ornitorrinco, sem estranhar que um homem passeasse de terno, gravata e chapéu numa tarde de verão. Distraído com suas pulgas amestradas, o ouriço-cacheiro não se deu ao trabalho de responder. – Meu nome é Franz Kafka e é um prazer conhecer dois cavalheiros tão simpáticos. – O meu é Ornithorhynchus anatinus, mas pode me chamar de Orni. Meu amigo se chama Erinaceus europaeus, mas prefere ser chamado de Eri. CARA DE UM... Com certeza você nunca viu Orni ou Eri, de perto ou de longe, portanto é minha obrigação apresentá-los sumariamente e contar um pouco de sua história. Natural da Austrália e desconhecido na Europa, Orni espantou os estudiosos ingleses desde o início. O zoólogo George Shaw, em 1799, foi o primeiro a descrever aquela criatura esquisita, dando-lhe o nome científico de Platipus anatinus. Seus colegas riram. – Absurdo! – exclamaram. – Isso não passa de fraude, e fraude grosseira. O biólogo Robert Knox declarou que aquilo devia ser obra de algum taxidermista asiático, tipo chinês ou japonês. Algo como costurar um bico de pato no corpo de um castor. Para refutar os colegas, Shaw, com uma tesoura, pôs-se a cutucar Orni, que caiu na gargalhada com as cócegas. Kafka notou que eu estava escrevendo besteira, que um animal empalhado não dá gargalhada, mas um cara ligado no absurdo não está nem aí para miudezas. Além disso, era apenas personagem de uma crônica e não estava autorizado a palpitar. ... FOCINHO DO OUTRO Eri, por sua vez, circula à vontade na Europa inteira, exceto nos países do norte, frios demais para seu temperamento quente. Tem cerca de seis mil espinhos de dois a três centímetros espalhados pelo dorso e pelos flancos. A barriguinha é descoberta. Antigamente, quando meio ambiente não estava na moda, os portugueses adoravam comê-lo assado, sob o pseudônimo de leitão da serra. Com uma bagaceira então, huuuum!... Seu grande predador é o automóvel nas autoestradas, veja você que bicho estranho. A virar banquete para raposas esfomeadas, prefere se transformar numa pasta de pelo, carne, osso e sangue espalhada no asfalto. Enfim, cada doido com sua mania. Agora te pego, caro leitor! Sabe como Eri transa, sendo tão espinhento? TORCENDO O NARIZ Sujeito engraçado esse Kafka. Com orelhas de abano e olhos exorbitantes, fica me olhando de banda, como se eu fosse Josef K., ou mesmo o agrimensor K., ou ainda o sujeito que amanheceu transformado num inseto enorme e cheio de patas.  Melhor fingir que não vejo esses olhos fixos nem conheço sua história de misoginia. Pois você sabe que ele foi noivo duas ou três vezes, não sabe? Talvez por timidez, ou medo de fracassar, como dizem que aconteceu, o certo é que se apaixonava, mas nunca se decidia. Havia ainda a figura prepotente do pai, grandalhão e bigodudo, a escolher por ele o que devia ou não estudar e que tipo de profissão exercer. INSIGHT Quanto eu tinha vinte anos, lembro bem, estava certo dia na esquina de rua São Paulo com avenida Augusto de Lima. Sei que estava ali, mas não via nada. Na minha cabeça só existia o conto “Na Colônia Penal”, que eu acabara de ler na antiga revista “Senhor”, a melhor e mais bonita publicação cultural que existiu no Brasil. Foi minha iniciação em Kafka e, com certeza, a guinada decisiva na minha vida. Enquanto alguns vão para a Índia aprender a jejuar, foi ali, naquele momento e naquela esquina, que aprendi a levitar. RETORNO Kafka parece mais alegrezinho depois dessa minha arenga. Vejo seus olhos grandes e brilhantes rindo. Perto dele, Orni e Eri finalmente me descobriram, aqui do lado de fora. Mas será que estou mesmo do lado de fora? E eles do lado de dentro da crônica? Os três me encaram com severidade e não sei o que fazer. Ou sei: transfiro a criação para eles e me torno espectador. DO LADO DE LÁ – Esquisito este nosso mundo, não é mesmo? – indagou Kafka. – Também acho – respondeu Orni. – Antes de nosso feliz encontro, estive comentando com o amigo Eri certas maluquices da natureza. Nada a ver com aquela anedota sobre o humor de Deus envolvendo minha aparência. – Que tipo de maluquice? – perguntou Kafka, não tanto por curiosidade, mas porque, caso deixasse Orni continuar, o parágrafo ficaria longo demais e poderia cansar o leitor. E sabemos a importância que se dá hoje ao conforto do leitor, chafurdando nestes tempos de ligeireza intelectual e impaciência generalizada. O LEITOR, O LEITOR! E então, caro leitor, o que achou dessa mudança de personagem ativo? Sei que não mudou grande coisa e minhas criaturas voltaram a falar como no início da crônica. Mudança radical mesmo, e bem à moda de Kafka, só se você tomar a frente e criar um labirinto. Ficarei esperando. Kakfa, Orni e Eri também. Nada mais escreverei sobre eles, nem mesmo como Eri faz para transar – e olha que é intessantíssimo. Portanto, ao trabalho, preguiçoso leitor! Nunca teremos oportunidade igual: você, eu, Kafka e dois bichos estranhos, quero dizer, você e quatro bichos estranhos. Por que você não tem nada de estranho, não é mesmo? Ou será que tem?

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