Lenda do sopro hoje na praça

Com 60 anos de carreira, Raul de Souza faz show gratuito em BH com clássicos da MPB e composições próprias

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

Gigante do trombone. Músico já acompanhou principais nomes da nossa MPB e é caso de estudo em universidade norte-americana
Zé Carlos Barretta
Gigante do trombone. Músico já acompanhou principais nomes da nossa MPB e é caso de estudo em universidade norte-americana

A voz rouca revela os 60 anos de carreira soprando o trombone, seu instrumento oficial. Raul de Souza é o trombonista brasileiro mais respeitado no mundo. Nome famoso da gafieira ao jazz, ele, que se apresenta hoje à noite na praça Floriano Peixoto, tem muito a celebrar sobre essa longa estrada. Tom Jobim, Hermeto Pascoal, Cal Tjader, Lionel Hampton, Sarah Vaughan, George Duke, Stanley Clarke, Ron Carter, Sonny Rollins, Sergio Mendes, Eumir Deodato, Egberto Gismonti, Airto Moreira, Milton Nascimento, João Donato, Toninho Horta, Altamiro Carrilho, Baden Powell e Sivuca são só alguns dos nomes com quem já tocou. Souza, que viveu durante alguns anos nos Estados Unidos, teve um de seus trabalhos, “Collors” (1974), como matéria de estudo da renomada Berklee College of Music e já recebeu o título de cidadão honorário (e a chave da cidade) de Atlanta.

O que pouca gente sabe é que essa história começou como um feliz acaso. “Era menino no Rio de Janeiro e passei com meu pai em frente a uma loja de instrumentos, quando vi um saxofone e fiquei encantado. Pedi a ele, que não tinha dinheiro. Faltava uma quantia de mais ou menos mil réis. Então ele me comprou o trombone mesmo”, conta Raul, que foi batizado João, mas adotou o nome artístico por sugestão de Ary Barroso, que lhe disse que João trombonista era muito comum.

Som da alma. Souza é autodidata e sempre foi. Estudou sozinho, de ouvido, e pedia dicas aos companheiros de profissão. “Com 18 anos comecei a entrar no meio profissional. Participar de programas de calouros, como o do próprio Ary Barroso, passou a ser meu ganha-pão. Assim também fui conhecendo os grandes músicos, inclusive americanos. Depois comecei a descobrir um estilo próprio e frequentava um programa diário (de rádio), às seis da tarde”, recorda ele. “Até porque eu não tinha rádio em casa. Minha família não tinha esse poder aquisitivo, meu pai era pastor evangélico. Então eu ia aprender e conhecer gente”, acrescenta.

Foi esse período, no entanto, que o impulsionou a deixar o Brasil. “Ficávamos naquela vidinha ali. Tocava com grandes músicos, conhecidíssimos, mas ninguém tentava sair daquilo, inovar. Quem tentasse era mal visto. Tinham medo de perder o posto que já ocupavam. Se alguém opinasse ou tocasse diferente, melhor, era mal olhado. Participei da Turma da Gafieira (grupo em que tocava com Altamiro, Sivuca, Baden Powell, Edison Machado, Zé Bodega, o maestro Cipó e José Marinho) em que tive a oportunidade de improvisar. Foi a primeira gravação em que um músico brasileiro teve a chance de mostrar algo da alma, do coração”, lembra. “A improvisação é uma mistura do conhecimento com o coração. Demanda muita rapidez mental e feeling”, diz Souza, que é essencialmente um mestre na arte e um dos maiores trombonistas de jazz do mundo. “Eu gosto de tocar tudo, mas o jazz é minha paixão, especialmente por seu andamento”, afirma.

No entanto, Raul de Souza era considerado ousado demais para os padrões brasileiros da época, e foi morar nos Estados Unidos, em 1970, fase que considera a melhor de sua carreira. Por lá, Souza já tocou no mesmo estúdio em que John Coltrane e Miles Davis gravaram e participou de um disco de Sonny Rollins.

Apesar disso, Souza acredita que na época em que começou, os músicos – não a maioria mas muitos –, tiveram a oportunidade de estudar e levar a fundo uma música em que acreditavam. “Hoje as músicas precisam ter um apelo comercial, é bem menos democrático”, compara.

No show de hoje, ele tocará MPB: Tom Jobim, Nelson Cavaquinho e suas próprias composições, incluindo “À Vontade Mesmo”, faixa-título de seu álbum de estreia, de 1965. “Nessa hora, também, um improviso é sempre bem-vindo. Vamos ver o clima do show”, brinca o músico.

Agenda

O QUE. Show de Raul de Souza. A apresentação tem abertura da banda Choro Nosso e do músico Felipe Continentino. 

QUANDO.  Às 19h

ONDE. Praça Floriano Peixoto, Santa Tereza

QUANTO. Entrada Franca

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