Flashes sobre a fotógrafa

iG Minas Gerais |

Anna Victoria Urbieta/Barbara Dutra Fotografia
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Recentemente, a mineira Márcia Charnizon exibiu, pela primeira vez em Belo Horizonte, no Museu de Arte e Ofícios, seu reconhecido e premiado trabalho retratando noivas – “No Detalhe de um Olhar”. Para a fotógrafa, a noiva é um personagem diversificado e singular na imaginação popular. “Nesse palco, o que me interessa é a capacidade de transformação dessas mulheres”, como ela conta a seguir.

 

Márcia, qual a origem do seu sobrenome, Charnizon?

É de origem judaica, da Romênia.

 

O que atrai o seu olhar quando fotografa noivas?

A maneira como a mulher se transforma. Brinco que elas entram no salão (de beleza) um nada e saem um tudo. Fico muito interessada nos dispositivos que elas escolhem para montar o personagem. É como se este dispositivo as autorizasse a vestir o personagem, como se desse poder. É tipo a mulher que não anda sem salto alto. O dispositivo pode ser uma joia. De repente, a noiva se apodera daquilo e um olhar acontece. Então, me interessa o personagem que ela montou e como é seu olhar. Algumas são brincalhonas. Outras, absolutamente sedutoras ou clássicas ou duras, tensas.

 

Você já fotografou fora de Minas. Há diferenças regionais entre as noivas?

Não tem diferença regional, mas de pessoas. As pessoas são diferentes. Eu não consigo pensar na noiva mineira, na noiva paulista, porque senão colocaria em nichos.  Acho que tem a noiva despojada, a clássica, a que quer desconstruir o papel da noiva...

 

Dá para sentir, pelo olhar, quando uma noiva carrega um pouco do desejo da mãe?

Algumas sim, mas não pelo olhar. Faço essa leitura pela experiência, convivendo com elas, observando a relação. E não acho que a noiva, especialmente, carregue isso, mas algumas mulheres carregam a mãe.

 

Como carma ou como dádiva?

Depende. Muitas como carma e é interessantíssimo ver isso.

 

Interessante também devem ser os bastidores com os noivos. É boa a relação ou pode existir uma “cortina de ferro” entre fotógrafo e fotografados?

De jeito nenhum! E se existir, eu quero é descortinar. No meu trabalho não vendo tanto a história de fotografar o casal junto, antes do casamento, porque acho que o bacana da noiva é a surpresa. E depois, acho que eu viro um “trambolho”. Então, acabo tendo pouco disso no meu trabalho. Mas se fotografo o casamento, sempre tenho os dois juntos.

 

Então você não curte fazer uma pós-produção, um ensaio depois que o casal volta da lua de mel?

Não acredito nessa ideia, então acabo sendo uma péssima vendedora dela. Fora que minhas noivas são muitos ocupadas, não têm tempo para nada. E não é para qualquer pessoa. Você tem que amar fotografia, vestir o personagem de novo, amarrar seu marido e puxar pela gravata porque os homens têm certa preguiça. 

 

Observando noivos há tanto tempo, você acha que o conceito de casamento mudou? Ainda é forte o sonho do véu e grinalda?

Acho que passa por “quero comemorar com meus queridos e dizer que eu amo essa pessoa”, mesmo que dure um mês.

 

Faz parte da realização da mulher?

Não é o casamento que realiza a mulher, mas o “personagem noiva”. Para umas é realização, outras nem querem saber deste personagem.

 

Como você vê o frenesi em torno de festas de casamento gigantescas?

De uma forma muito simples: é uma pontinha de como a gente vive hoje. Nosso consumo mudou, nossa informação mudou, temos acesso a muito mais coisas, que até nem existiam. E as pessoas querem mostrar que, sim, podem ter acesso a certas coisas. Por exemplo, hoje vamos ao supermercado e compramos coisas que não comprávamos antes. 

 

Seu mercado é o melhor para fotógrafos, sobretudo em Minas?

Acredito que não. O melhor mercado é onde você consegue fazer o melhor. Há o mito de que a fotografia de casamento dá muita grana, mas, se fosse assim, estaria muito fácil.

 

E o mercado para a fotografia de arte?

Lá fora existe, claro. Mas em BH a história está começando, o mercado ainda é muito tímido. Se não tem uma galeria te representando muito bem, se você não está com trabalho em fotolivros e vendendo, é bem difícil.

 

Se você se fotografasse, qual seria o resultado?

Não sei. Graças a Deus, não sei. (risos)

 

Paulo Navarro com Sabrina Santos

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