Um dia de incentivo e vaias

Festival francês anunciou premiação dedicada ao cinema ibero-americano e recebeu friamente longa ‘The Captive’

iG Minas Gerais |

Vaias. Egoyan (o segundo à esquerda) com o elenco de “The Captive”
Thibault Camus/AP
Vaias. Egoyan (o segundo à esquerda) com o elenco de “The Captive”

Cannes, França. As fronteiras entre os países da América Latina estão cada vez mais diluídas no mundo do cinema. E em meio a esse bom momento de coproduções entre os países de língua espanhola e portuguesa foi anunciado, ontem, em Cannes, a criação do prêmio ibero-americano de cinema Fênix, que tem a ambiciosa pretensão de olhar para todos os filmes lançados na América Latina – além de Portugal e Espanha.

Organizado pelo mexicano Ricardo Giraldo, o prêmio foi lançado com a participação de celebridades, como a atriz brasileira Alice Braga, a portuguesa Maria de Medeiros e a espanhola Paz Vega. “Estou feliz com o prêmio, porque venho de um país que fala português e, às vezes, nos sentimos separados de toda a América Latina pela barreira da linguagem, mas sempre somos muito bem-vindos”, disse Alice, que também está em Cannes para promover o longa “El Ardor”.

O prêmio contemplará filmes lançados nos países ibero-americanos entre maio do ano passado e deste ano. A festa será realizada em outubro, no México, mas as produções precisarão passar por eliminatórias: como são muitos países, eles serão divididos em grupos, com o Brasil disputando a primeira etapa com Argentina, Espanha e México – quase um grupo da morte, com as maiores forças do festival.

Dos grupos, sairão os representantes que disputarão uma das cinco vagas em cada uma das doze categorias do prêmio Fênix.

temas. O terceiro dia do Festival de Cannes trouxe duas tradições do evento: as vaias e os temas sexuais. O primeiro filme a ganhar apupos consistentes foi o canadense “The Captive”, dirigido pelo egípcio naturalizado canadense Atom Egoyan, apresentado ontem. O longa protagonizado por Ryan Reynolds trata do sequestro de uma criança de 9 anos na cidade de Niagara Falls, no Canadá.

Egoyan disse ter se inspirado em casos semelhantes no país, mas o roteiro é tão absurdo que resvala na paródia. A menina raptada sob os cuidados do pai (Reynolds) reaparece oito anos depois, quando a polícia descobre que ela está recrutando garotinhas para um grupo de pedófilos poderosos da região. “É um culto fictício não tão difícil de imaginar. Me parece extremo, mas no mundo em que vivemos tudo é absurdo. Por que não ir além?”, diz. O problema é que o cineasta roda o suspense sem choques ou consequências físicas e psicológicas. Há vilões estereotipados (Kevin Durand), pistas nas quais é impossível o público acreditar e um policial esquentadinho (Scott Speedman).

O segundo filme do dia, na mostra Um Certo Olhar, manteve o conteúdo sexual, porém mais explícito visualmente. “La Chambre Bleue”, adaptação do livro de Georges Simenon, é o primeiro longa do ator Mathieu Amalric como diretor desde o sucesso de “Turnê”, que lhe rendeu o prêmio de direção em Cannes, em 2010. O filme é fiel ao texto original, modernizado para transformar Julien (Amalric) em um empresário bem-sucedido da indústria de maquinário para agricultura. Ele deixa a mulher e a filha para passar horas em um quarto com uma ex-colega de escola, Esther (Stéphanie Cléau). A câmera dedica um bom tempo aos corpos nus dos amantes e amplia a claustrofobia da trama. Porém o longa escorrega quando Julien vira o principal suspeito de um assassinato, forçando uma sequência de flashbacks dramáticos que amenizam a ótima revelação final.

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