Espetáculo revela o amor em seu tempo suspenso

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Texto do norueguês Jon Fosse ganha versão do grupos Os Satyros
RODRIGO DIONISIO
Texto do norueguês Jon Fosse ganha versão do grupos Os Satyros

A relação amorosa entre casais costuma render encenações teatrais que lançam mão de um certo realismo para compor a cena. Embora seja um caminho “seguro”, a companhia os Satyros, da capital paulista, procurou elementos que fizessem a narrativa amorosa se distanciar da realidade, em uma espécie de suspensão do tempo real. Resultado disso é o espetáculo “Adormecidos”, que integra a programação do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT-BH).

“Essa é uma das coisas importantes de nosso espetáculo: há uma anulação de qualquer manifestação emocional por parte dos atores. Existe uma conexão da plateia muito forte com aquilo que está acontecendo, mas quem se emociona com a história é o público”, destaca o diretor da peça, Rodolfo Vásquez.

Outro recurso, que segundo o diretor, faz com que a relação realista não se instaure na peça é um jogo de transparências e de espelhos que fazem com o que público não tenha uma plena noção do tempo que se apresenta na cena. O texto da peça é do norueguês Jon Fosse, um dos mais importantes dramaturgos vivos da atualidade, e revela a história de dois casais. “A princípio, tudo parece muito simples: O primeiro casal é o que deu certo. Casou-se, teve filhos e vive apaixonado até a morte. O segundo é um casal cheio de dúvidas, em relação à maternidade, inclusive. Esses dois casais se encontram, mas o autor não deixa claro exatamente em que momento esse encontro se dá. Há uma suspensão do tempo. Esse é um dos recursos que exploramos em nossa encenação. Esse tempo dilatado”, revela o diretor.

Vásquez crê que apesar do processo de tradução (do norueguês para o inglês, do inglês para o português), é possível uma aproximação entre as palavras de Fosse e os brasileiros. “Ele trata de situações bem concretas e descreve seus personagens de maneira simples. São sempre ‘o homem velho’, a ‘mulher de meia-idade’, o ‘casal jovem’, por exemplo. Além disso, ele escreve em frases curtas, com um repertório de palavras bem restrito. A coisa toda tem um ritmo de acordes de guitarra que ele, inclusive, toca”, afirma ele.

A escolha de um texto pronto para levar à cena representou uma quebra da rotina do grupo, que tem sede na praça Roosevelt, no centro de São Paulo. “Vínhamos trabalhando a partir de assuntos, temáticas que levávamos à sala de ensaio sem texto pronto. Uma certa performatividade. Tivemos o desejo de voltar a trabalhar essa teatralidade que provém do texto para teatro”, revela Vásquez.

Jon Fosse se junta a Matei Visniec como um dos autores estrangeiros “descobertos” recentemente no Brasil, fato que pode ser justificado pela internet e por essa facilidade de se viajar na atualidade. “Ele é um autor prolífico, produziu muitos textos. Há nele muito do Beckett, como frases mais sintéticas e vários elementos filosóficos. É um dramaturgo excepcional’, avalia Vásquez.

Outra atração. Uma palhaça que quer se casar e pretende mostrar seus dotes “artísticos” para atrair pretendentes é motivação do espetáculo suíço “Kalabazi”, que se apresenta, hoje, na praça Duque de Caxias, às 17h30, também pelo FIT. Vestida com um vestido de bolinhas, os atributos de Jessica Arpin – única atriz em cena – passam por acrobacias e sua bicicleta amarela.

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