A arbitragem dando bandeira

iG Minas Gerais |

Desde que comecei a escrever neste espaço, venho ensaiando uma coluna sobre arbitragem no futebol, mas dois motivos me faziam adiar sua redação: assuntos mais quentes e a falta de um gancho apropriado, que não parecesse forçado. O gancho apareceu! Os episódios envolvendo a auxiliar (bandeirinha) Fernanda Colombo demonstram o quanto o futebol brasileiro está atrasado na questão, dentre tantas outras que impedem que o esporte no país seja o melhor do planeta, e não só em Copas do Mundo conquistadas. A Inglaterra ganhou apenas um Mundial, e o futebol inglês parece outro esporte, de tão organizado. Uma das razões é simples: a arbitragem é profissional, a única saída para não continuarmos a assistir no Brasil o que estamos vendo desde que essa moça começou a trabalhar em jogos da elite, e não é só com ela, que fique claro. Concordo plenamente com o diretor de futebol do Cruzeiro, Alexandre Mattos. Estão querendo promover a moça por causa de sua beleza. Quanto ao comentário sobre ela posar na Playboy, foi machista, e ele percebeu que tinha exagerado, tanto que se desculpou no dia seguinte, um ato nobre. Bonita ou feia, homem ou mulher, ela é muito ruim tecnicamente. Cometeu um erro grave em um meio de semana, em um jogo do São Paulo pela Copa do Brasil e, no fim de semana seguinte, foi escalada para apitar um dos maiores jogos do Brasil, o clássico entre Atlético e Cruzeiro. Se isso não é estar sendo privilegiada, então não sei de mais nada. Ah, só para não esquecer, errou feio também no clássico mineiro. Depois dos erros e de muitas críticas, a CBF resolveu afastar a moça para que ela faça uma “reciclagem”. Por meio de sua assessoria de imprensa, Fernanda disse que não havia sido informada do afastamento. Bandeirinha ter assessoria de imprensa? Ela quer ser auxiliar de arbitragem ou modelo, atriz, seja o que for? Isso demonstra que a arbitragem é tão somente um trampolim para alavancar a futura carreira da moça, seja ela qual for. Fernanda está no papel dela, procurando visibilidade para melhorar de vida, o que é legítimo. Tanto que está cobrando cachê de R$ 10 mil para ser presença “vip” em eventos, tipo ex-BBB. Agora, a CBF embarcar nessa, é brincadeira! Uma menina de 23 anos ser aspirante Fifa e errando desse jeito? Vai entender! Mas falando amplamente e indo ao cerne da questão, o problema é a falta de profissionalismo na arbitragem. Não dá para tudo no futebol ser extremamente profissional e os juízes não. Já vi muito dirigente pedindo a profissionalização, mas o buraco é mais embaixo. Se os árbitros fossem profissionais, eles não dependeriam de escalas para ganhar dinheiro, pois receberiam salários apitando ou não. Como dependem, não pensam duas vezes – isso não significa desonestidade – em apitar sempre no esquema “na dúvida, pró-clube grande”, afinal são os grandes que têm poder para vetá-los. Então conclui-se que, no fundo, os dirigentes dos maiores clubes querem que tudo fique como está. O problema é que eles não percebem que, mesmo representando os grandes, sempre tem algo maior. Basta ver o chororô – muitas vezes com fundamento – dos clubes de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e demais Estados com “erros” a favor dos times de Rio e São Paulo. Todos os clubes são vítimas dos árbitros malpreparados, que são assim por não haver estrutura para que sejam bem-preparados. Os dirigentes são inertes nessa questão e continuarão sendo vítimas de si mesmos.

Empecilho. Muitos dirigentes dizem que a dificuldade para a profissionalização passa pelo regime de trabalho ao qual essas pessoas estariam submetidas. Quem seriam seus patrões? Quem arcaria com os custos dos encargos trabalhistas? Como seria a seleção dos juízes? Todas essas perguntas só fazem a questão voltar para o lugar de sempre: os clubes precisam criar a liga e ficar livres da CBF de uma vez por todas.

Curiosidade jornalística. Em meados da década de 90, fiz o curso de árbitro na Federação Mineira para ver como era a formação oferecida. Ridícula! Aulas para cumprir tabela, livros de compra obrigatória – de “autoria” de parentes de quem dava o curso – e professores que mal sabiam falar português. Mas, o que mais me assustou, foi o nível da grande maioria dos alunos: semi-analfabetos, e que conseguiram o diploma. O meu está no fundo da gaveta desde então.

 

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