Um Hamlet ultra violento

Fundado por Brecht, grupo alemão Berliner Ensemble apresenta sua versão para tragédia de Shakespeare

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli Especial para O Tempo |

© Lucie Jansch
undefined

[NORMAL_A]Que não soe blasfêmia aos ouvidos dos puristas, mas há quem considere William Shakespeare uma espécie de Quentin Tarantino do século XVII. A comparação se faz pela crueldade sem concessões de ambos. Exemplo é o estrangulamento em tempo real de Desdêmona por Otelo. Ou o sacrifício de Ofélia e o assassinato por engano de Polônio que mancham as mãos de Hamlet em sua trajetória de vingança.

Se a violência já é elemento essencial às tragédias do bardo, o que esperar de uma versão interessada em acentuar tal aspecto, fazendo com que Polônio tenha o cérebro arrancado pelo príncipe da Dinamarca? Eis a que se propõe o diretor alemão Leander Haussmann em “Hamlet”, um dos espetáculos mais aguardados desta edição do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT-BH), e que se apresenta hoje e amanhã, no Palácio das Artes.

A expectativa é que a obra de três horas e meia (com intervalo) provoque um impacto ainda não sentido nesta edição do festival.

Na visão de Haussmann, os personagens criados por Shakespeare foram matrizes para as sanguinolentas figuras de filmes na linha de “Jogos Mortais”.

“Os dois matadores de ‘Pulp Fiction’ são uma cópia dos de ‘Ricardo III’”, declarou o diretor à “Folha de S.Paulo” recentemente. Para ele, não há nobreza no desejo de vingança do filho do rei traído e morto. O que move Hamlet é o descontrole.

Haussmann dirige a montagem com o Berliner Ensemble, companhia teatral criada em 1949 pelo dramaturgo e diretor Bertolt Brecht (1898-1956), um dos mais importantes pensadores da história do teatro, cuja teoria e prática de um teatro épico ainda hoje influenciam produções contemporâneas pelo potencial reflexivo e crítico.

Mais de meio século após a morte do fundador, o grupo sediado em Berlim perpetua seu legado, mas recusa para si a função de museu. Em 2012, o Berliner Ensemble trouxe ao Brasil “Mãe Coragem e Seus Filhos” (escrito por Brecht em 1939), sob a direção de Claus Paymann, e a recepção crítica ressaltou que os traços épicos e dialéticos apareciam na montagem destituídos de nostalgia e com vigor artístico.

No mesmo ano, a companhia voltou com “Lulu” e “A Ópera dos Três Vinténs”, sob a direção inconfundível de Bob Wilson. Ao longo de 65 anos de história, o Berliner Ensemble já foi dirigido por alguns dos mais importantes encenadores do mundo. O próprio Bob Wilson acumula mais três trabalhos feitos em conjunto com ao grupo. E Heiner Müller, importante discípulo de Brecht e, ao mesmo tempo, um dos dramaturgos mais originais do século XX, assumiu a direção da companhia em 1992, três anos antes de sua morte. Daquela safra, o Brasil pôde ver em 1997 o espetáculo “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”.

Expressivo. Haussmann já montou anteriormente com o Berliner Ensemble versões para “Sonhos de Uma Noite de Verão” e “A Tempestade”, também de Shakespeare. “Ele é um diretor com uma grande e maravilhosa fantasia, mas uma conexão forte com a realidade”, descreve o ator Christopher Nell, intérprete de Hamlet, em entrevista ao Magazine. “O público pode esperar por imagens teatrais e expressivas que irrompam em uma situação muito realista e retornem. É um jogo radicalmente lúdico com a história e nossa própria realidade, sem medo dos meios teatrais”.

Como é próprio a um clássico, “Hamlet” já assumiu as mais diversas roupagens nos palcos, desde versões mais convencionais ao moletom usado por Wagner Moura, das máscaras de esgrimas de “Amleto” (do Laboratório Pontedera) à desconstrução da Cia. dos Atores em “Ensaio.Hamlet”. “Nós tentamos desde o princípio nos afastarmos do Hamlet pensador, duvidoso, o jovem imobilizado como ele tem sido interpretado na maioria das vezes, em direção ao Hamlet com raiva, indignado, inquieto, oprimido”, diz Nell. “Por isso a nossa versão é bastante física e as imagens que Leader cria expressam muito além das palavras – que, como sabemos, são muitas”.

Para o ator alemão, a peça guarda uma dimensão política simultânea à tragédia familiar. “A família é a menor célula política, um microcosmo de toda a sociedade. A peça é muito política em si e nos concentramos mais no nível familiar onde tudo começa”, conta Nell.

O ator veio ao Brasil em 2012 no elenco de “A Ópera dos Três Vinténs”, na qual conheceu Bob Wilson, para depois com ele fazer os “Sonetos de Shakespeare”. No Berliner Ensemble, já foi também Romeu.

Agenda

O Quê. “Hamlet”, com o Berliner Ensemble

Quando. Hoje, às 20h, e amanhã, às 19h

Onde. Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro, 3236-7400).

Quanto. R$ 20 e R$ 10 (meia)

CONTINUA NA PÁGINA 2

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave