Tecnociência e Capital

Economista propõe reflexões acerca das questões, dúvidas e certezas sobre a relação entre dinheiro e desenvolvimento técnico-científico

iG Minas Gerais | ARI DE OLIVEIRA ZENHA |

“A produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador.” Karl Marx, O Capital

O desenvolvimento das forças produtivas representa para o capital não só sua afirmação como sistema de produção dominante, mas também uma necessidade imperativa da sua dinâmica reprodutiva no sentido do desenvolvimento e apropriação contínua e ambígua da tecnociência. Isto não implica que o desenvolvimento técnico-científico que se realizou e se realiza esteja desvinculado das relações sociais, produtivas e históricas da humanidade.

No atual momento do capital a tecnociência pode parecer ter uma autonomia, independência da estrutura produtiva dominante. Mas é uma constatação aparente, pois na realidade existe um imbricamento entre tecnociência e estrutura produtiva, onde ambas se interligam formando um todo que proporciona ao capitalismo uma alavanca para que suas estruturas continuem em desenvolvimento, mesmo que nos leve a uma situação de impasse ou de barbárie autofágica.

O potencial destrutivo que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia coloca para o mundo globalizado é uma realidade. Mas esta constatação sempre existiu em estado latente, seja qual for a forma que assuma o desenvolvimento tecnológico. Situar a análise deste desenvolvimento numa perspectiva a-histórica e moralista é extremamente questionável e polêmico.

O imperativo estrutural do dinamismo do capital sempre esteve alicerçado no desenvolvimento histórico/real das forças produtivas e das potencialidades da ciência a serviço desta dinâmica reprodutiva do capitalismo. A engenharia genética, a evolução da informática, da eletrônica, da robótica, da inteligência artificial, da biotecnologia, da nanotecnologia e outros avanços científico-tecnológicos no mundo, nos colocam frente a importantes questões: a quem serve esta tecnologia? O que representa para a sociedade o desenvolvimento e execução destas novas tecnologias? Qual o papel da ciência no mundo do capital? Qual o sentido e significado para a humanidade do desenvolvimento tecnocientifico? Que controle tem a sociedade sobre estes processos? 

Diante da hegemonia do capital globalizado, da predominância da sua auto-reprodução ampliada, da busca pelo aumento da produtividade, da afirmação e expansão da ideologia dominante, da divisão social do trabalho, da subordinação do desenvolvimento tecnocientifico às necessidades e interesses do complexo militar-industrial, entre tantas, tem levado a tecnociência a dar legitimidade ideológica, produtiva e social ao desenvolvimento das forças produtivo-destrutivas do capitalismo.

Ao mesmo tempo em que o capital estruturalmente necessita para continuar sua reprodução, acumulação e ampliação global do desenvolvimento, contínuo e desmesurável da tecnociência, ele introduz em seu esquema de produção novos e avançados ramos de atividades produtivas, que, dentro de sua lógica, alavanca sua estrutura de produção e reprodução, elevando suas formas de produção, exploração e apropriação, reproduzindo, em um novo patamar, suas agudas contradições estruturais.

Falar em desaparecimento da espécie humana, do surgimento de nova espécie superior, uma mutação do ser humano, enfim, o aparecimento do cyborgs, que seriam a corporificação destas modificações bioquímicas, fisiológicas e eletrônicas que a tecnociência pode e vem arquitetando é uma possibilidade real.

O desenvolvimento da tecnociência, de fato, mantida dentro da lógica estrutural do capital, acarreta, devido a sua perversidade e destrutividade, que, não sendo contidas e colocadas sob a hegemonia das forças sociais historicamente dominadas, exploradas e antagônicas do capital, uma perspectiva extremamente perturbadora e também desintegradora para a humanidade.

Outra questão que podemos levantar é em relação aos aspectos jurídico-institucionais. Como todo avanço tecnocientifico, estas que nos apresentam no momento, têm mostrado que as instituições jurídicas, criadas como parte da superestrutura do capital, estão completamente confusas e impotentes frente a estes embaralhamentos de fronteiras e representações que a tecnociência coloca para toda a sociedade civil a nível global.

Podemos constatar que, as questões, dúvidas e certezas aqui apresentadas são extremamente complexas e que merecem de todos nós profundas reflexões.

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