50 anos da Ditadura Militar

Economista Ari de Oliveira Zenha trata a questão de cinquentenário da Ditadura Militar

iG Minas Gerais | ARI DE OLIVEIRA ZENHA |

“Fecha-se o cerco; avança cada vez mais forte, o solerte poder da opressão e da morte.” Dryden

No mês de abril o manto da escuridão, da morte, da tortura, da repressão e do silêncio dos cemitérios fez 50 anos. Foram anos de um golpe civil-militar (Ditadura Militar) apoiado, articulado desde seu início pelos Estados Unidos em conjunto com as forças de direita, extrema direita, civil e militar do Brasil.

Nos quarteis, em instituições como Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) onde o coronel Golbery do Couto e Silva era seu ideólogo, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) comandado por Hasslocher, o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e por fim a Igreja Católica (com raras exceções) e a famigerada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, articularam claramente o golpe civil-militar.

O coronel norte americano Dick Walters veio ao Brasil em 1962 com uma missão específica: articular as forças armadas brasileiras para estabelecer um Golpe de Estado. Enquanto isto em Belo Horizonte o agente da CIA Dan Mitrrione realizava treinamento das forças armadas, policia militar e policia civil.

Segundo o jornalista Flávio Tavares: “Desde a posse de Jango em 1961, o Ipes preparava não só nos quarteis, mas também os conservadores-civis de direita para a guerra. Para aquilo que os livros do coronel Golbery do Couto e Silva definia como ‘a guerra total, individual e permanente’ entre o bem e o mal, entre o Ocidente capitalista e o Oriente comunista. E facilmente surgiram corpos armados, que faziam treinamento de tiro e combate e se atribuíam nomes pomposos – Grupo de Ação Patriótica, Vigilantes do Brasil, Patrulhas da Democracia e dezenas de outras mais. Todas se espelhavam no CCC (Comando de Caça aos Comunistas)...”

Os golpistas agiam abertamente; no Clube Paulistano o CCC se exercitava em tiro.

Carlos Lacerda no antigo Estado da Guanabara liderava uma direita raivosa e impetuosa, em São Paulo Adhemar de Barros, em Minas Gerais Magalhães Pinto, os três governadores dos Estados mais importantes do país.

O embaixador norte americano Lincon Gordon e o coronel também americano Walters em conjunto com as forças de direita e extrema direita brasileira agiam livremente apoiados em milhões de dólares que recebiam dos Estados Unidos enviados sistematicamente para promover não só a desestabilização do governo do Brasil, como para financiar os grupos e movimentos de direita e extrema direita.

Toda a direita estava empenhada para se criar um clima de terror e medo na população brasileira e para isto utilizava todos os mecanismos disponíveis de comunicação à época: rádio, televisão, cinemas, panfletos, revistas, cartilhas, jornais; palestras em todos os lugares possíveis: clubes, escolas, associações. Era uma preparação psicológica, uma doutrinação, enfim uma verdadeira lavagem cerebral para criar um clima propício para a direita desfechar o seu verdadeiro e fatal golpe.

A esquerda brasileira mal organizada e confiante no respeito constitucional das forças armadas promoviam movimentos, atividades e tentavam se organizar de forma mais eficaz e consequente para enfrentar as adversidades que já estavam claras para todos de uma tentativa da ruptura constitucional. Mesmo o movimento nacionalista titubeava entre as pauta das reformas de base ou o apoio antirreformas de direita.

No nordeste as Ligas Camponesas enfrentavam corajosamente os coronéis e latifundiários.

As Reformas de Base, mote principal do governo de João Goulart estavam sob fogo cerrado da direita e da extrema direita. A nacionalização de duas empresas norte americanas promovida por Leonel Brizola quando Governador do Rio Grande do Sul causou um reboliço geral na direita brasileira e no governo norte americano.

A esquerda se dividia em termos de ação, estratégia e tática para enfrentar a avalanche desencadeada pela direita e extrema direita. Dividida e sem um norte definido, pois na quase totalidade acreditava na neutralidade das forças armadas e mesmo na adesão de vários oficiais das três armas e sem uma proposta socialista que fizesse frente às “tímidas” Reformas de Base de Jango se perdia diante dos acontecimentos patrocinados pela direita e extrema direita.

Mobilizações promovidas à esquerda como: greves, luta pela reforma agraria, luta pelas Reformas de Base, jornada de 8 horas entre outras eram realizadas. A grande maioria da esquerda acreditava, ingenuamente, no projeto desenvolvimentista apregoado pelo Governo Federal que tinha como um dos pilares o economista Celso Furtado apoiado numa suposta burguesia nacional progressista.

Quanto mais se radicalizava as lutas de parte a parte mais evidentes ficava a incompatibilidade entre aqueles que lutavam por mudanças e as forças da direita e extrema direita que eram contra. Os movimentos populares pediam armas para se defender e lutar pelos seus ideais, mas nada. A direita realizava um terrorismo aberto, já não se escondia, nem disfarçava, partia para o enfretamento amplo e aberto.

A ausência de um partido de esquerda de massa, revolucionário, freava, travava as lutas e colocava toda a esquerda num processo sem rumo, sem coordenação e sem diretrizes de ação. Ficava engessada dentro dos limites impostos por nacionalistas e restritas a rebater os ataques da direita e extrema direita, enfim caia num imobilismo que mais favorecia a reação do que fazia caminhar para um processo de mudança, socialista. Aliás, luta pelo socialismo estava mais na cabeça da direita e extrema direita do que da própria esquerda em quase sua totalidade. O movimento progressista sempre esteve restrito a um projeto sustentado dentro dos limites do capitalismo.

João Goulart nunca foi socialista e nunca propôs, nem mesmo quando acossado pela esquerda, uma proposta socialista revolucionária, estas coisas só se passavam, no contexto da guerra fria, na cabeça da direita norte americana e dos fanáticos direitistas brasileiros.

Uma ínfima parte das forças armadas brasileira não concordava com o golpe militar- civil, e, quando o golpe se consolidou e fortaleceu estes que foram contra sofreram forte represarias, inclusive (pouquíssimos) pagaram com a própria vida ou foram expulsos ou aposentados compulsoriamente.

Não me alongando mais, este período sangrento da história de todos nós brasileiros não deve nunca ser esquecido, mas lembrado como uma das épocas mais trágicas e tristes da nossa história de luta por um Brasil verdadeiramente justo, solidário, fraterno e humano.

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