Memórias de um correspondente

iG Minas Gerais | Josias Pereira |

Moreno Netto segura uma foto da seleção que venceu a Copa que ele cobriu, em 1958
JOÃO GODINHO
Moreno Netto segura uma foto da seleção que venceu a Copa que ele cobriu, em 1958

Não tínhamos muita esperança de título. Embarcamos, como se diz, para viver uma aventura”. Há 56 anos, o jovem repórter Moreno Netto, do jornal “O Diário”, pertencente à Cúria Metropolitana de Belo Horizonte, seguia em direção à Suécia para viver uma das maiores experiências da sua vida.

Hoje, aos 80 anos, ele se orgulha de ter tido o privilégio de ser uma das testemunhas oculares daquele time que quebrou o complexo de inferioridade da seleção brasileira em Copas do Mundo e redefiniu para sempre o mapa do futebol mundial com a presença verde-amarela.

A saga da primeira estrela dourada brasileira começou como uma grande surpresa. Uma empresa de gás da capital mineira resolveu patrocinar a ida de um repórter à distante Escandinávia. Moreno Netto, no auge de seus 23 anos, foi o escolhido.

“Apesar da burocracia da época, consegui um passaporte diplomático. Saí do Brasil na correria. Viajei para Lisboa, depois fui para Londres e, da capital inglesa, parti para Estocolmo. Sem muita estrutura, tive que arrumar um hotelzinho barato em Hindås, cidade em que a seleção ficou concentrada”, relembra Netto.

Cariocas x Paulistas. Junto com Moreno, outros quatro jornalistas mineiros participaram da cobertura daquele certame, entre eles Jairo Anatólio Lima. Eles eram vistos com desdém pela imprensa carioca e pela paulista, rivais políticos e também futebolísticos. “Nós não tínhamos muito prestígio perto deles. Viviam brigando entre si. Mas na seleção era tudo bem diferente”, destaca.

Moreno Neto explica que “quem estava fora dessa ‘batalha’ tinha livre acesso na concentração da seleção brasileira. Levávamos vantagem em cima deles. Era a nossa forma de dar o troco”.

Expectativa para 2014. Com as Copas de 1958 e 1962 no currículo, Moreno Netto também comentou sobre sua expectativa para o Mundial deste ano. Saudosista de uma época em que o futebol era sustentado pela paixão, acima de tudo, pelo país, o jornalista aposentado não está muito confiante na seleção de Luiz Felipe Scolari.

“O que falta hoje é mais vibração dos jogadores. Não aquela vibração de raça, mas sim a vibração de poder representar seu país. Talvez, nesta Copa, eles mostrem isto, uma identidade maior com o Brasil. Mas será uma Copa estranha. Vamos esperar e ver o que vai dar”, analisa, pensativo, o repórter.

Bastidores A Copa de 1958 ficou marcada pelo surgimento de uma dupla que nunca perdeu com a camisa da seleção: Garrincha e Pelé. “Mesmo novo, o Pelé tinha uma disciplina formidável. Ele entrou naquela Copa porque outros titulares fracassaram (Mazolla e Dida). Se Pelé era disciplinado, o Garrincha era uma verdadeira piada. Ele não dava a mínima para os treinadores. Pelé e Garrincha aprontaram um carnaval para cima dos adversários”, diz.

Dificuldades No dia 8 de junho, a seleção brasileira estreou com um 3 a 0 sobre a Áustria. Começava a saga de Moreno Netto para enviar as informações para a capital mineira. “A gente datilografava tudo e enviava via malote por uma companhia de aviação britânica. Eles prestaram um grande serviço aos correspondentes. As informações chegavam uns três dias depois, os telefonemas eram raros. Foram as transmissões de rádio que salvaram aquela Copa”, conta.

A virada Na primeira fase do torneio, a seleção empataria com a Inglaterra e venceria a URSS por 2 a 0. Mesmo com os resultados positivos, faltava algo. A resposta veio nas quartas de final. “O complexo de inferioridade nos deixava com um pé atrás. Só tivemos certeza de que o time ganharia o título quando vencemos o País de Gales, quando Pelé brilhou e fez o gol da vitória. Aí tivemos a certeza de que o Brasil seria campeão mundial”, lembra Netto.

Na memória Na fase final do torneio, duas goleadas fulminantes. A primeira sobre a França, e a outra sobre os anfitriões suecos na grande final. Dez gols, cinco deles de Pelé. “O mundo inteiro reverenciou a seleção brasileira. Aquela foi uma das maiores glórias do nosso futebol. Quando o Bellini ergueu a taça, deixamos tudo para trás, o fantasma de 1950. Os suecos aplaudiram de pé nossa seleção, um gesto que nunca vou esquecer”, conclui o jornalista.

 

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