Aprendendo a perder

iG Minas Gerais |

Nunca é bom perder. Duvido que alguém goste. Das pequenices diárias às dores profundas, a perda é um verdadeiro aprendizado. Pode ser um antigo vinil, um livro, documentos, a roupa predileta, o horário do voo e até um e-mail deletado sem querer. Também pode ser a melhor amiga, um grande amor ou alguém que deste mundo partiu sem dizer adeus. No último caso, a lacuna aberta é totalmente irreparável e fora do contexto que desejo tratar hoje. Falo mais da sensação de incômodo consequente às perdas comuns que precisamos enfrentar no dia a dia – sejam elas fúteis ou não. Tanta gente tenta evitar a irritação, finge não senti-la, mas ela está ali e, sejamos humanos, atormenta a grande maioria. Vejo isso em exemplos diários. Adultos vivem dizendo às crianças o quanto é importante aprender a perder, quando a maioria deles, na verdade, ainda não se acostumou com isso.  Um exemplo clássico é o futebol. Já assistiu a uma partida envolvendo crianças? Posso descrever a cena. Além de toda exaltação durante o jogo, ao final dele, você verá pais e mães do time derrotado simplesmente inconformados. Uns emburrados, outros tristes. E todos desolados diante da perda. Muitas vezes, estão mais frustrados do que os próprios atletas. Chega a ser engraçado. Minutos depois do descontrole, retomam a postura de educadores – e fingindo ter esportiva – explicam aos filhos o quanto é necessário aprender com o erro para ganhar na próxima vez. Como se fosse fácil... Na semana passada, perdi um e-mail. E demorei muito a processar a raiva de tê-lo apagado sem querer. E pior, sem respondê-lo. Fiquei realmente chateada porque queria escrever uma coluna baseada na história da Camila (acredito ser esse o nome da leitora que enviou o e-mail, embora não esteja muito certa). Mas, como não se vive só de lamentos, segui com outros escritos. Ainda anseio por mais detalhes sobre a turma do metrô. Pessoas que se encontravam todas as manhãs em um mesmo vagão e, a partir daí, desenvolveram laços de amizade. Eu lembro – com base na leitura rápida e corrida antes de apagar equivocadamente o e-mail – que um dos membros do grupo se chama Marco Aurélio. Sinceramente, espero que a leitora se reconheça aqui e me envie de novo detalhes daquela história. Ela sente saudade da turma. Eu sinto pela perda do e-mail. Por falar em metrô, a Laís perdeu um documento importante por lá. Também foi na semana passada. O trem estava vazio, e ela deixou o envelope em um assento vago. Era um contrato de locação já assinado por um fiador – espécie em extinção nos dias de hoje. Logo, Laís sentia muita raiva de si mesma, pois terá que refazer todo o processo. Xingou um bocado, esbravejou e prometeu ficar mais atenta ao que carrega, porque as perdas são constantes. Já Helena conseguiu a proeza de perder um cachorro. Bob estava na coleira, e, ainda assim, ela conseguiu deixá-lo escapar. Foi caminhar na praça do Santa Efigênia e, ao encontrar as amigas, se descuidou do bichinho. Helena está chorosa, tinha Bob como um filho. Já espalhou cartazes de “procura-se” pelo bairro e alimenta esperança de que irá reencontrá-lo em breve. O Isaías me contou, em um rápido encontro no supermercado, que perdeu a namorada. Foram cinco anos, e ele não se conforma. Ela está com outro rapaz, e ele, arrasado com isso. Falei que passa quando encontrar um novo amor... A vida é deste jeito: todos os dias, alguém perde coisas, sensações e amores. Ainda assim, ela não para. Há o que pode ser encontrado. Há o que é passível de substituição. Há o que nunca ninguém irá repor. Mas há também aprendizado em cada dia difícil. A gente processa os incômodos e, depois, segue adiante. É como deve ser.

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