Glouton e a cozinha contemporânea

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Acho que já comentei em artigo anterior que As Salgadeiras, Lisboa, foi a melhor descoberta gastronômica nos dois meses de Europa. Isso não significa, entretanto, que se trate do restaurante mais criativo ou sofisticado que visitamos. É que a excepcional qualidade no preparo do convencional se sobrepõe, em minha opinião, às leituras contemporâneas inventivas e executadas com primor e exuberância irregulares. Dois restaurantes sicilianos, por exemplo, A Cala Velaria di Barbaro Marcello, na marina de Palermo, e sobretudo Al Duomo, na praça da catedral, como o nome revela, em Taormina, são muito mais ousados e atuais, e nem por isso desbancam As Salgadeiras do pódio. Ainda assim, valem muito à pena. No Al Duomo provei um ceviche de peixe espada com cubinhos de laranja vermelha, ácida, e alho-poró finamente picado, inesquecível. Aliás, Taormina é de beleza ímpar e deve ser incluída em qualquer roteiro de viagem romântica. Finalmente fui conhecer o festejado Glouton, na rua Bárbara Heliodora, Lourdes. Muito bom. Gostaria de poder concordar que é fabuloso, como muita gente em Belo Horizonte considera... Mas ainda não é. A atmosfera é aconchegante e a decoração bonita. O atendimento é um pouco desatento e os processos de desconstrução culinária instigam, sem chegar a comover. Em duas visitas pudemos pedir e comparar antepastos, entradas e pratos principais diversos. Chego ao veredicto: alguns ótimos pratos, outros nem tanto, numa relação custo-benefício que deixa a desejar. Ponto para as mil-folhas de mandioca, tira-gosto bonito e saboroso, sobre molho suavemente picante. Idem para os tentáculos de polvo grelhados, macios e bem temperados, numa mescla soberba com a farofinha crocante de amêndoas. Gostosa a arraia grelhada, embora demasiado untuosa. Mas em matéria de gordura além da conta, a crítica deve recair sobre o papillote de camarão, com massa fininha recobrindo o pescado, lembrando um mandiopã. Francamente, prefiro o tempura do Sushi Naka. A papada de porco magra realmente desmancha na boca e casa bem com o mil folhas de mandioca, mas me pareceu insípida, ao contrário do ótimo entrecôte grelhado, no ponto perfeito de grelha e condimentação, e da costela de boi cozida em 12 horas, ao molho de café, com angu de canjica branca. No conjunto, o prato é um pouco pesado. Meu xará, o chef Leonardo Paixão, tem talento e futuro. Ainda está dois degraus aquém do Felipe Rameh, e a um do Guilherme, do Hermengarda, do Américo, do Cantina Piacenza e do Leandro Pimenta, do (extinto) The L.A.B. Todos caminham para, um dia, superarem o mestre Ivo Faria. Espero que todos eles e o Neymar cumpram o seu destino.

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