Bardo do bar: da Tetê

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Diminui o passo quando vi a confusão na porta do bar da Tetê, uma pequena multidão aturdida, expressões horrorizadas, gente com cara indignada e gente com cara de quem não estava entendendo nada, muitos policiais com suas motos e viaturas, alguns fotógrafos e uma meia-dúzia de pessoas com crachá de imprensa, assuntando com gravadores em punho. Devia ser quase 19h, um pouco mais tarde do que habitualmente costumo chegar por lá. A porta de metal de enrolar estava baixada até a metade, e em pé, ao lado dela, como que acuado, estava o freguês-estátua, como costumo chamar o sujeito que está sempre lá, sentado ao balcão, taciturno, bebericando sua coca-cola e com os olhos vidrados na televisão. Mesmo sabendo de seu temperamento arredio, foi para ele que perguntei o que estava acontecendo. “Foi há mais ou menos uma hora, no ponto de ônibus ali do outro lado da rua, perto da rampa do metrô. Quando saí aqui para ver, já estava acontecendo. Parece que foi um arrastão, um grupo de uns quatro ou cinco pivetes que veio correndo de lá e passou roubando as coisas das pessoas que estavam no ponto, bem cheio, aliás. Um homem reagiu e o pivete enfiou um canivete da barriga dele. Isso é o que as pessoas estão dizendo, porque a cena mesmo eu não vi”, explicou o freguês-estátua, com voz pausada e um português claro que eu supunha lhe faltar, dada a mudez empedernida em que está sempre mergulhado. Segui ouvindo atento o relato. “A gritaria chamou atenção e, quando cheguei aqui na porta, só via a correria, gente pra todo lado. Um neguinho em carreira desabalada veio do outro lado da rua, não sei se era um dos pivetes ou só alguém fugindo da confusão, mas o fato é que, com todo mundo gritando ‘pega ladrão’, dizendo que um homem tinha sido esfaqueado, um fortão que estava passando aqui na calçada, bem em frente ao bar, deu uma voadora e uma gravata no sujeito, dobrou o braço dele pra trás e fez ele se sentar no meio-fio”, contava, um pouco trêmulo, o freguês-estátua, agora para mim e para um policial que havia se aproximado para também ouvir. “O cara que estava rendido, sentado no meio-fio, bem aqui na porta, parecia não estar entendendo nada, só dizia ‘me solta, me solta, eu não fiz nada’, mas o fortão continuava segurando. Não sei de onde, apareceu uma dona gritando ‘foi ele, foi ele sim, é um deles’, daí começou a se formar uma roda em volta do neguinho e quase que imediatamente apareceu um outro sujeito que já chegou chutando com muita força o queixo do cara que estava rendido. Deve ter deslocado o maxilar, porque ficou assim, uma parte do rosto dele pra lá, outra pra cá, todo desfigurado. E voou dente e sangue longe. Depois desse primeiro chute, o resto do povo que estava ao redor perdeu a compostura e começou a bater também, uns até com pedaço de pau”, dizia, enquanto o policial fazia umas anotações num bloquinho. Perguntei por Tetê. O cliente-estátua disse que ela tinha saído de seu banco atrás do balcão e ido ver o que estava acontecendo logo depois dele. “A gente estava aqui só assistindo a confusão, mas quando começaram a bater no cara aqui em frente, dona Tetê tentou impedir, começou a gritar para o pessoal parar e foi lá, tentar empurrar pra longe a turma que estava em volta do neguinho no meio-fio. Mas aí acabou sobrando pra ela também, que tomou uma porretada na cabeça e se afastou cambaleando, entrou no bar e ficou sentada aqui, com o rosto e a roupa ensopados de sangue, com o olho estatelado e cara de quem ia desmaiar. O povo continuava batendo no neguinho lá fora, e continuou até começar a chegar a polícia. Muita gente que está aí agora só se fazendo de curiosa também participou do linchamento. Quase que junto com as viaturas e motos da polícia chegaram dois carros do atendimento de emergência. Levaram o sujeito que levou a facada na barriga e também o cara que foi espancado, isso depois de ele ficar um tempo aqui na calçada, todo estropiado, nem sei se ainda estava vivo. Dona Tetê, que não desmaiou, mas ficou meio grogue, acabou indo junto com o pessoal da emergência. Eu fiquei sem saber o que fazer, então recolhi a mesa e as cadeiras que estavam aqui fora e fechei a porta do bar pela metade. Nunca achei que eu fosse presenciar isso, um negócio muito feio mesmo”.

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