Memórias da primeira estrela dourada

Correspondente na Copa de 1958, Moreno Netto se orgulha de ter tido o privilégio de ser uma das testemunhas oculares da seleção que conquistou o 1º título mundial do Brasil

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

ESPORTES - ESPECIAL : BELO HORIZONTE - MG - ESPECIAL DA COPA O SENHOR MORENO NETTO FALA DA SUA EXPERIENCIA NA COPA DE 1958 .
FOTOS: JOAO GODINHO/ O TEMPO  14.05.2014
JOAO GODINHO/ O TEMPO
ESPORTES - ESPECIAL : BELO HORIZONTE - MG - ESPECIAL DA COPA O SENHOR MORENO NETTO FALA DA SUA EXPERIENCIA NA COPA DE 1958 . FOTOS: JOAO GODINHO/ O TEMPO 14.05.2014

"Não tínhamos muita esperança de título. Embarcamos, como se diz, para viver uma aventura". Há 56 anos, o jovem repórter belo-horizontino Moreno Netto do jornal "O Diário", pertencente à Cúria Metropolitana da capital, seguia em direção a Suécia para viver uma das maiores aventuras da sua vida. Hoje, aos 80 anos, ele se orgulha de ter tido o privilégio de ser uma das testemunhas oculares daquele time que quebrou o complexo de inferioridade da seleção brasileira em Copas e redesenhou para sempre o mapa do futebol mundial. A saga da primeira estrela dourada brasileira começou como uma grande surpresa. Uma empresa de gás da capital mineira resolveu patrocinar a ida de um repórter a distante Escandinávia. Moreno Netto, no auge de seus 23 anos, foi o escolhido. "Apesar da burocracia da época, consegui um passaporte diplomático. Saí do Brasil na correria. Viajei para Lisboa, depois fui para Londres e da capital inglesa parti para Estocolmo. Sem muita estrutura, tive que arrumar um hotelzinho barato em Hindås, cidade que a seleção ficou concentrada ", conta. Cariocas x Paulistas. Junto com Moreno, outros quatro jornalistas mineiros participaram da cobertura daquele certame, entre eles Jairo Anatólio Lima. Eles eram vistos com desdém pela imprensa carioca e paulista, rivais políticos e também futebolísticos. "Nós não tínhamos muito prestígio perto deles. Viviam brigando entre si. Mas na seleção era tudo bem diferente”. “Quem estava fora desta 'batalha’ tinha livre acesso na concentração da seleção. Levávamos vantagem em cima deles. Era a nossa forma de dar o troco", destaca.  Os bastidores. A Copa de 1958 ficou marcada também pelo surgimento de uma dupla que jamais perdeu vestindo a camisa da seleção brasileira – Garrincha e Pelé. O antagonismo do dueto permanece vivo na memória de Moreno. "O Pelé, mesmo novo, tinha uma disciplina formidável. Ele entrou acidentalmente naquela Copa já que todos os outros titulares fracassaram (Mazolla e Dida). Hoje, olhando para trás, ainda bem que todos fracassaram. Ele (Pelé) e Garrincha aprontaram um carnaval para cima dos adversários", afirma. "Se o Pelé era disciplinado, o Garrincha era uma verdadeira piada. Para ele, todas as coisas se transformavam em gozação. Me lembro de um dia em que todo mundo estava concentrado, trabalhando, e ele chegou. Do nada, a gente começou a ouvir uns barulhos parecidos com tiros. Estava lá o Garrincha dando tiros com sua arma imaginária na parede. Perguntávamos para ele 'Garrincha, o que você está fazendo? Está ficando maluco?'. Ele respondia 'estou matando... Matando a saudade'”, recorda

“Ele também não dava a mínima para o que os treinadores diziam. Entrava tudo em um ouvido e saía no outro", completa. Mas também existiam os atletas mais ‘saidinhos’. Entre uma folga e outra da concentração, os jogadores brasileiros aproveitavam a vida. “A gente via sempre alguns rodeados de suecas. Os que faziam mais sucesso com a mulherada eram o Didi e o Bellini. Aconteceu muito disto naquela Copa, os jogadores aproveitaram bem”, revela. Dificuldades na cobertura. No dia 8 de junho, a seleção brasileira estreou na competição. Um 3 a 0 fácil sobre a Áustria com dois gols de Mazzola e outro de Nilton Santos. Começava também a saga de Moreno Netto para enviar as informações do Mundial para a capital mineira.

“A gente datilografava tudo e enviava via malote por uma companhia de aviação britânica que tinha uma parceria com Panair (companhia aérea brasileira que precedeu a Varig). Eles prestaram um grande serviço a nós correspondentes. As informações chegavam uns três dias depois, mas era um tempo suficiente. Naquela época, eram raros os telefonemas. Foram as transmissões de rádio que salvaram aquela Copa”, conta. A hora da virada. Na primeira fase do torneio, a seleção ainda empataria com a Inglaterra, totalmente desconfigurada após o acidente de avião que vitimou os jogadores do Manchester United, à época base do “English Team”, e venceria a URSS por 2 a 0. Mesmo com os resultados positivos, faltava àquela seleção um algo a mais. A resposta veio nas quartas de final.

“Não estávamos muito confiantes. A seleção estava indo bem, mas aquele velho complexo de inferioridade ainda nos deixava com um pé atrás. Só fomos ter certeza de que aquele time poderia ganhar o título quando ganhamos do País de Gales. Naquele dia,, o Pelé brilhou, fez o gol da vitória por 1 a 0, e aí não tínhamos mais dúvidas. O Brasil seria campeão mundial”, lembra Moreno Netto. Para sempre na memória. Na sequência do torneio, duas goleadas fulminantes. A primeira sobre a França, nas semis, e a outra sobre os anfitriões suecos na grande final. Dez gols marcados, cinco deles de Pelé. “O mundo inteiro reverenciou a seleção brasileira. Foi uma conquista incontestável. Aquela foi uma das maiores glórias do nosso futebol. Quando o Bellini ergueu a taça deixamos tudo para trás, o fantasma de 1950, o complexo de inferioridade. Os suecos aplaudiram de pé nossa seleção, um gesto que nunca vou esquecer”, conclui o jornalista, que saudosista ainda fez questão de valorizar o empenho de outros pilares do primeiro título mundial. “Aquela conquista passou pelas mãos do sempre presente Paulo Machado de Carvalho (chefe da delegação), pelos pés do Nilton Santos e também pelo sono do Feola (risos). Pessoal judiava muito dele. Mas naquelas cochiladas no banco, os jogadores aproveitavam para fazer o que queriam e deu certo”, finaliza.

Expectativa para o Mundial deste ano. Com as Copas de 1958 e 1962 no currículo, Moreno Netto também comentou sobre sua expectativa para o Mundial deste ano. Saudosista de uma época em que o futebol era sustentado pela paixão, acima de tudo pelo país, o jornalista aposentado não está muito confiante com a seleção de Luiz Felipe Scolari.

“O que falta hoje é mais vibração dos jogadores. Não aquela vibração de raça, mas sim a vibração de poder representar seu país. Talvez, nesta Copa, eles mostrem isto, uma identidade maior com o Brasil. Mas será uma Copa estranha. Vamos esperar e ver o que vai dar”, conclui.