Não deixe o samba morrer

“O Samba Carioca de Wilson Baptista” estreia na capital para resgatar a importância do desafeto de Noel Rosa

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Dupla. Rodrigo Alzuguir e Cláudia Ventura se revezam em mais de dez personagens da vida de Wilson Baptista
kiko vieira/divulgação
Dupla. Rodrigo Alzuguir e Cláudia Ventura se revezam em mais de dez personagens da vida de Wilson Baptista

Apesar de ter feito parte da nata do samba nos anos 30 e ter convivido com nomes como Noel Rosa e Ataulfo Alves, “o maior sambista brasileiro de todos os tempos”, segundo Paulinho da Viola, permaneceu desconhecido do grande público por um longo período. Porém, um trabalho de 10 anos de apurações do pesquisador Rodrigo Alzuguir resgatou, no ano passado, a vida e a extensa obra de Wilson Baptista.

É nesse contexto que chega a Belo Horizonte a nova temporada do musical “O Samba Carioca de Wilson Baptista”, que homenageia o centenário do compositor. A encenação remonta como o mulato pobre do Rio de Janeiro que não tocava nenhum instrumento, compôs mais de 500 sambas balançando caixas de fósforo e já falava de machismo e libertação sexual nas décadas de 30 e 40.

O espetáculo reconta toda a vida do sambista, desde quando ele saiu da cidade fluminense de Campos dos Goytacazes na adolescência, fugido em um trem cargueiro para tentar a vida de ator fracassada no Rio, até o sucesso nas rádios. A ideia do musical nasceu quando Rodrigo Alzuguir fez a arte do disco “Ganha-se Pouco, Mas É Divertido” (2010), em que Cristina Buarque faz releituras de Wilson Baptista.

“Percebi a genialidade das letras e arregacei as mangas para pesquisar sobre ele. Me preocupei em mostrar que Wilson foi um dos sambistas de melhor texto do Brasil, mas que não se preocupava em fazer uma carreira. Ele descobriu que era bom em compor e vendeu vários sambas para comer e ter aonde dormir”, diz Rodrigo Alzuguir.

Além de rebater críticas de que o compositor era ganancioso e vendia suas músicas sem pudor, uma das principais ideias do musical é desmistificar as disputas entre Wilson Baptista e Noel Rosa – que marcaram o nome do primeiro como vilão do samba. Na biografia “Wilson Baptista, o Samba Foi a sua Glória” (Casa da Palavra, 2013), Rodrigo Alzuguir destrincha em um texto detalhista como os dois sambistas se apaixonaram por uma misteriosa dançarina do cabaré Apolo, situado na Lapa de 1930, e iniciaram, então, uma disputa com troca de farpas em letras de seus sambas e de orgulhos feridos destilados nas mesas dos bares cariocas. “Eles não eram inimigos, o Noel tinha ciúmes dele, mas os dois só tinham uma disputa saudável por rusgas pequenas que foram explícitas em várias canções dos dois. Tentei procurar a tal dançaria, mas ninguém sabe notícias dela. Encontrei apenas outra dançarina da Lapa, a Cecy, que hoje está com 93 anos e foi a maior paixão de Noel. Tenho indícios de que o Wilson também se interessou por ela e isso pode ter contribuído para os conflitos”.

Com direção de Sidnei Cruz, o espetáculo revive um clima de cabaré, o ambiente do Café Nice – ponto de encontro de compositores e intelectuais da década de 30 – sem grandes pompas de figurino e com cenário simples. Com apoio dos músicos Nando Duarte (violão de sete cordas), Levi Chaves (sopros), Luís Barcelos (cavaquinho e bandolim) e Geórgia Câmara e Naife Simões (percussão), Rodrigo Alzuguir divide o palco com a atriz carioca Cláudia Ventura para interpretar mais de dez personagens importantes na vida de Wilson Baptista, além de cerca de 60 canções do compositor.

Em uma das cenas, Cláudia interpreta como mulher Ataulfo Alves, enquanto Wilson encarna Getúlio Vargas para retratar o episódio em que o então presidente do Brasil pediu explicações sobre a canção “O Bonde de São Januário” (Wilson Baptista/Ataufo Alves), em que a palavra operário é trocada por otário. “A gente não se preocupou em fazer algo que contasse a vida de Wilson, em ter que ser fiel à aparência, tanto que eu faço personagens homens de vestido mesmo”, brinca a atriz Cláudia Ventura.

Em 1 hora e 30 minutos de espetáculo, Wilson Baptista é apresentado ao público como o único sambista da época à frente de seu tempo. Um compositor que expôs a fragilidade sentimental dos homens (“Não Sei Dar Adeus”), o drama de prostitutas que ele costumava se relacionar (“Flor da Lapa”), o já existente pacto de silêncio nos morros e favelas para não apontar autores de crimes à polícia (“Mulato Calado”), além de ser um dos pioneiros em cantar a emancipação da mulher, como na divertida marchinha “Mundo Às Avessas”: “A mulher dele arranjou / Emprego de trocador / Ele é quem faz o arroz / Ele é quem faz o feijão”.

Agenda

O quê. “O Samba Carioca de Wilson Baptista”

Onde. Teatro Dom Silvério (avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi)

Quando. 17 de maio (sábado, às 21h) e 18 de maio (domingo, às 19h)

Quanto. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

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