Foco no eleitor mais pobre

iG Minas Gerais |

A propaganda lançada anteontem pelo PT ainda vai dar muito pano para manga, mas já deixa claro algumas diretrizes do partido. No vídeo, famílias em situações do dia a dia – andando de carro, fazendo compras, tomando sorvete – se deparam com “fantasmas do passado”. Eles se veem nos mesmos locais, mas em uma condição social bem pior anos atrás. Quem agora tem um automóvel se lembra da época de retirante andando a pé pelas estradas. O menino com mochila nas costas ao lado da mãe recorda do tempo de pedinte nos sinais de trânsito. E por aí vai ao longo de um minuto, com imagens de cinema e um clima meio deprê. Do ponto de vista do sentimento abordado por detrás do comercial, não há novidade. O PT aposta no medo, no “terrorismo” em relação a uma futura mudança para atingir o eleitor. É como se dissesse: olha, se mudarmos a direção do país, todas essas conquistas – o carro, a escola, o remédio – podem acabar. A tática já foi usada contra Lula inúmeras vezes, desde sua primeira eleição presidencial, em 1989, quando ele era associado a um terrível comunista disposto a acabar com a propriedade privada, até 2002, quando a atriz Regina Duarte disse “ter medo” de um candidato que havia mudado demais ao longo dos anos. Nas três primeiras vezes, a tática do medo funcionou. Na última, a aparição da atriz global acabou provocando uma reação contrária à campanha de Serra, apoiado por Regina Duarte. O mais interessante agora, porém, não é a volta da estratégia do medo, mas o direcionamento da campanha. Em um dos momentos mais críticos até então, quando Dilma cai nas pesquisas e é atacada por todos os lados, principalmente, nas regiões Sudeste e Sul do país, o PT decide ignorar esse público e priorizar sua força de votos com as classes mais pobres. O comercial lançado nesta semana tem o foco explícito nos novos brasileiros da classe C. O partido quer fidelizar a população beneficiada pelos programas sociais, como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Pronatec. E a predileção por esse eleitor, assim como a produção do novo vídeo, não é gratuita. De acordo com dados do Datafolha, a maior parte do eleitorado brasileiro tem entre 25 e 34 anos, mora em cidades com menos de 50 mil habitantes, possui ensino médio e renda familiar mensal baixa, de até R$ 1.448. Ou seja, mais uma vez, a população de baixa renda é quem irá decidir o pleito. Esses dados talvez expliquem a nova postura do PT, ignorando os ataques de parte do empresariado brasileiro e dos dois principais candidatos de oposição, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). O partido parece apostar em um eleitorado fiel e em expansão e também em um teto de crescimento da oposição.

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