Um herói em busca de salvação

Wagner Moura e apuro técnico encenam a beleza do interior de um vulcão

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Entrega. Wagner Moura encarna corpo e alma de um homem em ebulição interna na busca por sua identidade
california / divulgação
Entrega. Wagner Moura encarna corpo e alma de um homem em ebulição interna na busca por sua identidade

Logo no início de “Praia do Futuro”, ocorre um afogamento, em que um homem se deixa levar pelo mar até desaparecer. É uma imagem do que acontecerá com o protagonista Donato (Wagner Moura), que vai mergulhar em um relacionamento e se deixar levar até sumir para sua família e sua vida anterior.  

Mas a história de Donato não é de desaparecimento, e sim de renascimento. Não por acaso, quando o espectador o reencontra após ele decidir “sumir”, o protagonista está flutuando em um aquário que lembra um casulo. Como um bebê em um útero, a roupa de neoprene que se desprega dele ao sair de lá é uma placenta que revela um novo homem.

O quinto filme do diretor Karim Ainouz é cheio dessas imagens significativas, que dizem muito mais do que a própria história. Assim como em seus longas anteriores, especialmente “O Céu de Suely”, a trama de “Praia do Futuro” é mínima e serve como mera desculpa para descobrir qual é o gatilho que dispara a explosão que parece estar ebulindo por trás dos olhos de seu protagonista.

Por mais que Ainouz afirme que quis fazer o filme para contar uma história com “mais ação e aventura” do que seus outros trabalhos, “Praia do Futuro” é mais um exemplar da filmografia de contemplação da paisagem da inquietação humana do diretor. O mais próximo que o longa chega desse objetivo é uma comparação com “Drive”. Ambas as produções se alicerçam em uma obsessão pela esfinge do rosto de seus protagonistas – só que a violência da ação do filme de Nicolas Winding Refn é substituída aqui por apaixonadas cenas de sexo.

Se o protagonista vivido por Ryan Gosling era um dublê que sonhava em ser o herói de sua história, o Donato de Moura é um herói que quer, mas não sabe como, salvar a si mesmo. Apesar de ele resgatar Konrad na cena inicial, é o alemão que traz o protagonista de volta à superfície – e de volta à vida.

Isso fica claro na cena mais bonita do filme. Após Donato tomar uma decisão que vai mudar sua história, o diretor corta para o personagem dançando em uma boate, mas a trilha que ouvimos é uma música quase clássica que expressa, na verdade, a paz de espírito que o protagonista sente por dentro.

As composições de Volker Bertelmann marcam a primeira vez que Ainouz usa trilha original em seu trabalho. A paixão de suas cordas, masculinas e sensíveis ao mesmo tempo, complementam a bela fotografia impassiva de Ali Olay Gözkaya, revelando as emoções tão guardadas a sete chaves dentro de Donato.

A contraposição entre imagem e som é a própria definição do protagonista. Um homem tão corajoso em transformar sua existência, mas tão temeroso de enfrentar as consequências disso – um medo que fica claro nas “armaduras” do uniforme de bombeiro e, posteriormente, dos casacos de frio, que contrastam com a obsessão do filme por corpos nus.

Moura provavelmente nunca esteve tão sincero e tão desarmado em uma performance, aceitando os paradoxos desse personagem que deseja e reluta por sua liberdade. As cenas em que Donato é confrontado pelo irmão Ayrton (Jesuíta Barbosa, de “Tatuagem”), que vai atrás dele em Berlim, estão entre as melhores da carreira do ator. Em silêncio, os olhos de Moura encontram uma forma de dizer “eu sinto muito, mas não me arrependo” para um personagem que não sabe como falar isso.

Traçar com verdade a jornada até essa autoconsciência é o triunfo do filme – e de Wagner Moura. Porque Donato vai até Berlim atrás de algo que está dentro dele mesmo – uma semente que só vai fecundar no solo correto. Uma resposta à pergunta feita por Bob Dylan há 50 anos, “quantas estradas um homem deve percorrer até ser chamado de homem? Em quantos mares uma gaivota deve mergulhar até descansar na praia?”. A resposta, meus amigos, está em “Praia do Futuro”.

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