Um lugar de felicidade

Com ‘Praia do Futuro’, Karim Ainouz faz mais uma crônica de personagens inquietos em busca de seu espaço no mundo

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Cena. Wagner Moura interpreta um salva-vidas que vive em Fortaleza e depois vai em busca de seu sonho em Berlim
califórnia/divulgação
Cena. Wagner Moura interpreta um salva-vidas que vive em Fortaleza e depois vai em busca de seu sonho em Berlim

“O Céu de Suely” termina com a protagonista desaparecendo em uma estrada. “O Abismo Prateado” também. “Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo” se encerra com uma estrada que chega ao mar. “Não é algo pensado, mas existe uma ideia de que o filme continua ali, com a câmera, mas os personagens saem de quadro e ganham vida fora dele”, reflete seu diretor, Karim Aïnouz.  

Como seus irmãos mais velhos, “Praia do Futuro”, que estreia nesta quinta em Belo Horizonte, termina em uma estrada. Mas a diferença é que ele também começa em uma. O protagonista Donato (Wagner Moura) – o salva-vidas da praia do título, que se apaixona pelo alemão Konrad (Clemens Schick) e parte com ele para Berlim, deixando tudo para trás – é uma espécie de “continuação espiritual” de Suely. Como se Aïnouz narrasse o que acontece após aquela cena final de seu segundo longa.

“É a primeira vez que acompanho o personagem na travessia. Normalmente deixo ele fazê-la sozinho”, revela o diretor. Mas ele admite que, se Donato e Suely compartilham a ânsia por “um porto alegre”, essa é uma aproximação por oposição. Enquanto ela sai do sertão em busca do mar, ele faz o caminho inverso.

“Me interessava esse rapaz com os sonhos corroídos pelo sal, olhando para o mar com vontade de entrar”, explica Aïnouz. Enquanto o mar representa, para o protagonista, uma fuga da farsa sufocante que é sua vida em Fortaleza, Berlim é a primeira vez em que ele mergulha nessa liberdade que tanto busca sem ter que segurar a respiração.

Essa inversão da fórmula do peixe fora d’água, que só vai se encontrar longe do mar, é o principal sintoma de como “Praia do Futuro” subverte clichês, quebrando o tempo todo as expectativas do espectador. “Na estreia no Festival de Berlim, quando o filme estreou, perguntaram por que o cara vai embora de um lugar paradisíaco para uma cidade fria e cinzenta. Não é porque é fria e cinzenta que é menos feliz”, brinca o cineasta.

A quebra de estereótipos foi amplificada pela estreia no festival, ao lado de outro longa brasileiro, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, que também trata da descoberta da identidade sexual. Para Aïnouz, 48, a justaposição foi excelente porque as obras tratam o tema de maneiras completamente diferentes, refletindo a própria diferença de gerações entre ele e o diretor Daniel Ribeiro e tornando as questões mais complexas e menos estereotipadas em “um país tão católico, homofóbico e careta”.

“Não existe filme gay, assim como não existe filme hetero. O Donato representa uma geração que, para viver sua sexualidade, para ser completamente livre, precisa sumir”, argumenta. Essa liberdade se manifesta em belíssimas cenas em que Wagner Moura dança como se ninguém estivesse vendo. “Se fizesse um filme que não tivesse gente dançando, eu não me interessaria”, afirma o cineasta, sério.

O uso diegético de música e dança na obra de Ainouz, que vem desde “Madame Satã”, tem origem na fase de roteiro, quando ele seleciona canções que o ajudam a encontrar o tom do longa. Em “Praia do Futuro”, esse tom vem do choque entre o romantismo da “chanson française” com o rock de “Heroes”, de David Bowie, que exprimem as diferentes sensações vividas pelo monossilábico protagonista. “Tem uma coisa na dança que é de uma presença cinematográfica profunda. Mesmo quando não tem nada no roteiro, eu invento no set. A melhor radiografia do ser humano é quando ele dança”, considera.

A dualidade romance/rock reflete os temas que o diretor queria explorar no longa. “É como se você fosse fazer um prato, mas não sabe no que vai dar, só quais ingredientes quer usar”, compara. Em “Praia do Futuro”, eles eram essa ideia de dois lugares que representam coragem e medo, e desse homem que dá um salto entre eles. “O Donato é muito corajoso, não tem medo de nada, mas ele é um pequeno covarde também. É isso que faz dele singular”, analisa Aïnouz.

O diretor queria um cearense para viver esse homem tão paradoxal. Mas ele e Wagner Moura “vinham se cantando há 15 anos” e, quando leu o roteiro, o ator convenceu o cineasta de que, depois de Capitão Nascimento e do pai de “A Busca”, ele precisava de um desafio. “Os papéis que ele vinha fazendo eram muito fortes e grandiloquentes. Me deu vontade de levar o Wagner pro lugar do silêncio, observar um vulcão antes de entrar em erupção”, justifica Aïnouz.

E sem os cacoetes e as muletas do cinema de gênero, Moura se despe literal e figurativamente em Donato, com a observação inquisidora e silenciosa da câmera revelando no corpo e no rosto do ator pura vulnerabilidade e inquietação. “O ser humano é muito bonito quando vulnerável. E as mudanças no mundo vêm dos personagens inquietos”, sintetiza o diretor.

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