Cannes recebe filme sobre Kelly com desprezo

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Nicole Kidman protagoniza o longa sobre a princesa de Mônaco
Joel Ryan / Invision / AP
Nicole Kidman protagoniza o longa sobre a princesa de Mônaco

CANNES, FRANÇA. A abertura da 67ª edição do Festival de Cannes tinha tudo para ser o sonho da direção do evento. Afinal, “Grace: A Princesa de Mônaco” foi filmado a poucos quilômetros da croisette; trazia o tema da família real do principado de Mônaco, tão glamourosa tanto aos franceses quanto ao resto do mundo; e ainda é a história do “conto de fadas europeu” sobre a atriz norte-americana Grace Kelly (1929-1982), que abandonou a carreira para se casar com o príncipe Rainer 3º, em 1956. 

Mas não foi bem isso que se viu na sessão de imprensa que abriu o festival ontem. O filme dirigido por Olivier Dahan (“Piaf – Um Hino ao Amor”) foi recebido com um silêncio sepulcral e algumas vaias durante os créditos de encerramento. A reação chega a ser um elogio ao filme, possivelmente um dos mais superficiais a abrir Cannes nos últimos anos – e isso contando com o exagerado “O Grande Gatsby”, dono da abertura do ano passado.

A família real de Mônaco, que acusou o filme de inventar histórias falsas sobre a relação da nobreza mediterrânea para atingir fins lucrativos, acertou em suas suspeitas. Dahan construiu um drama maniqueísta com o uso exageradíssimo da trilha sonora de Christopher Gunning (também de “Piaf”) e cenários compostos para explorar as lindas paisagens do principado – ajudado pela fotografia de Eric Gautier (“Na Estrada”).

A escolha da Nicole Kidman também foi errada. A atriz de 46 anos claramente precisou de uma maquiagem pesada – e de outros artifícios – para rejuvenescer 20 anos e interpretar Grace Kelly entre 26 e 30 anos, época em que casou com o Rainier (Tim Roth) e começou a questionar seu papel como princesa no início dos anos 60.

O longa tenta escapar das comparações realistas já na abertura, colocando o letreiro “Trata-se de uma história ficcional, baseada em eventos reais”, mas é impossível comprar o equilíbrio entre trama política – Mônaco era ameaçada de extinção pelo presidente francês Charles de Gaulle (André Penvern) – e o drama de uma mulher de personalidade no mundo chique e vazio de Mônaco.

Tanto que o próprio produtor norte-americano, Harvey Weinstein, pediu mudanças para lançar o filme nos Estados Unidos com um corte privilegiando o lado atriz da ganhadora do Oscar por “Amar É Sofrer” (1954) e a preferida de Alfred Hitchcock. No fim, poderiam chamar o filme de “Família Real Sofre”. Pelo menos deixaria o público avisado sobre o que veria no cinema.

Kidman. Em Cannes para promover o filme, Nicole Kidman revelou que sua vitória no Oscar de 2003 como melhor atriz por “As Horas” foi “o período mais solitário da minha vida”. “Quando voltei para casa com o Oscar, não tinha amor lá. Não existia isso na minha vida. Meu auges profissionais sempre coincidiram com momentos de baixa na vida pessoal”, confessou a atriz.

Separada de Tom Cruise havia dois anos, e três antes de conhecer seu atual marido, o músico country Keith Urban, a estrela admitiu que hoje abandonaria sua carreira em troca da família, como fez Grace Kelly. “Eu nunca precisei tomar essa decisão, mas não pensaria duas vezes. Espero que existam coisas que possa fazer (além de ser atriz), porque o amor para mim é tudo”.

Apesar de entender a decisão de Grace, Nicole afirmou que teve uma certa liberdade para interpretar uma das atrizes mais icônicas do cinema. “Era importante que eu não me sentisse aprisionada pelo papel”, explicou. “Eu interpretei pessoas reais antes, mas agora eu tinha muitos filmes, cenas de entrevistas e reportagens antigas. Entrei na pele de Grace Kelly observando tudo isso. Foi uma experiência linda poder vivê-la por seis meses”.

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