À primeira teclada

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Chat’ando pelos computadores da vida, acabaram se conhecendo: a Gatinha Manhosa e o Moreno Alto, Bonito e Sensual. Tudo começou num sábado de chuva, fim de mês e fim de grana, como explicava o Artur (o Moreno) a seu amigo Roberto. Sem ter o que fazer e com quem fazer, de repente se viu navegando na internet, nas páginas de um chat, à procura de um porto seguro onde pudesse ancorar sua solidão. O negócio funcionava mais ou menos como um “correio sentimental”, em que o fulano procura a sicrana para amizade profunda e quem sabe até futuros compromissos; também tinha a opção de o beltrano procurar a fulana para assuntos picantes e quem sabe até promessas de momentos “calientes”. No momento sozinho e meio deprê, estava ele mais interessado em “futuros compromissos” que em fugazes loucuras. E a Gatinha Manhosa, pelas prerrogativas, tinha tudo a ver com o que procurava: 30 anos, solteira, profissão definida, cabelos longos e lisos, charmosinha e carinhosa. Também adorava dançar, viajar, ir ao cinema, bons livros, amizade sincera e outros bla-bla-blás. – É ela, tenho certeza! – dizia Artur ao amigo, que, atento e solidário, a tudo escutava. Enquanto isso, do outro lado da cidade... – Foi amor às primeiras tecladas – explicava a Gatinha Gorete à sua amiga Marli. Entre mil opções, aparecera ele, o moreno que preencheria o seu vazio. No início achou-o meio pedante, afinal esse papo de “bonito e sensual” tinha um quê de sacanagem ou de exagerado narcisismo, mas, tudo bem, tirando o pseudônimo, o resto era perfeito, se encaixava bem dentro de suas expectativas. – É como se fosse a tampa do meu balaio – dizia à amiga, que, atenta e solidária, a tudo escutava. Após os primeiros bate-papos, os encontros virtuais tornaram-se cada vez mais constantes e desejados. Até que, duas semanas depois, Gorete começou a se arrepender das pequenas mentirinhas, ou melhor, das omissões da verdade, como preferia dizer, do início do relacionamento. Como explicar nessa altura do campeonato que os “cabelos lisos e longos” não passavam de uma progressiva com formol feita no salão da esquina, que, por sinal, lhe custara os olhos da cara? E a “profissão definida”, que era a coisa mais indefinida que se podia imaginar? Desempregada, era a própria loja ambulante. Vendia de bijuterias a produtos da Avon e, graças ao seu jeito falante, acabou adquirindo boa e fiel freguesia, o suficiente para manter as contas em dia. Outra: fez três anos de balé no tempo de colegial, cujas apresentações de fim de ano aconteciam no palquinho da escola; daí a ser uma “ex-bailarina” era um continente. Mas o pior mesmo foi a foto enviada por e-mail, aquela de 12 anos antes, quando ainda era magrinha, com tudo em cima, e total desconhecedora da lei da gravidade. Os cabelos presos lhe davam um quê de sensualidade que, sinceramente, não fazia a menor ideia de onde viera. Enfim, como explicar ao Moreno Alto, Bonito e Sensual que as coisas não eram beeem assim? Na verdade eram mais ou menos assim, naturalmente mais pra menos que pra mais. Mas fazer o quê? O namoro já estava ficando sério, e ela sem saber como agir. Manter um relacionamento em cima de mentiras não era o seu desejo. Por outro lado, temia que a verdade espantasse o pretendente, não pelo fato de se mostrar como era, mas pelo fato de as primeiras inverdades abrirem portas ao descrédito e à falta de confiança. Já estava ficando paranoica com essa história e não cansava de se martirizar. Por que foi falar de Saint Tropez, quando seus conhecimentos não iam além da “Riviera capixaba”? E quando, logo no início, se excedeu dizendo que estava com vontade de ir aos Estados Unidos de novo, imagina! Bom, na verdade, no ano anterior ela havia tido vontade, agora estava com vontade de novo; portanto, não falou nenhuma mentira. O problema, explicava ela, era que no início do bate-papo entrara de curtição, não imaginando que pudesse vir a se apaixonar. Contou aquelas lorotas e fantasias não para se vangloriar, mas pelo simples fato de poder ao menos uma vez na vida se sentir poderosa e independente. – Quanta besteira, meu Deus! – dizia arrependida à sua amiga. Enquanto isso... – Cara! Que pisada na bola! Logo eu, retraído desse jeito, dando uma de gostoso. Bonito e sensual! Não acredito que me apresentei dessa maneira – dizia o desconsolado Artur ao seu amigo Roberto. A noite chegou. De frente para o computador, o Moreno Alto, Bonito e Sensual aguardava com ansiedade a sua Gatinha Manhosa. Após dois meses de virtuais conversas, desabafos e declarações, não mais poderiam evitar um encontro pessoal. Ele marcou, e ela confirmou. – E seja lá o que Deus quiser! – pensaram temerosos ante a expectativa de se mostrarem como realmente eram. Eles se encontrariam numa simpática cantina italiana, com mesinhas coloridas e ótimo astral. Marcaram para as 20h, e às 19h30 ele já estava lá, segurando uma rosa vermelha, cujos espinhos afiados fincavam seus dedos trêmulos e suados. Vinte horas. Ela entra insegura em seu vestido esvoaçante. Olham-se e, por alguns momentos, não se identificam. Olham-se novamente, desta vez, de um modo diferente... Olham-se no fundo de suas almas, que não têm cor, não têm tamanho nem precisam de regime... Almas que, finalmente, acabam por se encontrar.

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