Escrita afinada com a reflexão

Ana Maria Gonçalves, autora do romance “Um Defeito de Cor”, bate papo com o público hoje no Ofício da Palavra

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Ana Maria Gonçalves pretende lançar um novo livro até o fim do ano
Brenda Ligia
Ana Maria Gonçalves pretende lançar um novo livro até o fim do ano

Quando lançou “Um Defeito de Cor”, em 2006, Ana Maria Gonçalves, mineira radicada em Salvador, não calculava a repercussão do romance que lhe rendeu o Prêmio Casa de las Américas, na categoria literatura brasileira. Embora tivesse publicado antes o título “Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim”, em 2002, foi a narrativa centrada na história da escrava Kahinde que trouxe mais visibilidade para a sua escrita.

Em Belo Horizonte para participar do evento Ofício da Palavra, no Museu de Artes e Ofícios, a autora bate-papo hoje com o público e compartilha sua experiência criativa. Prestes a lançar um novo livro, que deverá ser seu primeiro infantojuvenil, desta vez afinado com o gênero da ficção científica, ela diz manter em comum com “Um Defeito de Cor” alguns traços temáticos, como a questão do racismo.

“Eu me achei em relação ao tema que gosto de trabalhar. As questões raciais ainda são algo a ser melhor discutido aqui. No meu próximo livro eu trato disso por meio de uma história que se passa em uma sociedade pós-racial. A ideia é apresentar o olhar de um adolescente que estuda em uma escola de classe média alta, onde há um único negro”, explica Ana Maria Gonçalves.

Ela conta que para retomar a produção literária, depois de um hiato de cerca de sete anos, precisou enveredar por um outro segmento capaz de lhe abrir novos caminhos. Ao refletir sobre o que representou “Um Defeito de Cor” em sua trajetória, Ana afirma ter sido este um marco importante para a sua carreira, tanto no nível profissional quanto pessoal.

“A grande descoberta desse livro eu só fiz depois de o ter produzido. Com ‘Um Defeito de Cor’ eu vi que ele refletia a busca por minha identidade. Eu venho de uma família formada por uma mãe negra e um pai branco, ficando ali numa identidade não muito bem definida. Foi aí que notei ser muito difícil assumir uma identidade negra, pois a sociedade te empurra para que você não faça isso”, observa Gonçalves.

“Às vezes, as pessoas falam com você de uma maneira que acham estar fazendo uma elogio, por exemplo, ‘você não é negra, é clarinha’. Então, o que estava buscando com aquela história foi recordar esse passado dos brasileiros descendentes de escravos”, acrescenta.

A história da garota Kahinde que aos 8 anos é trazida de Daomé, atual Benin, na África, para trabalhar no Brasil, é narrada em primeira pessoa. Ana buscou representar por meio dessa personagem a trajetória de várias outras mulheres com destino semelhante.

Para isso, ela realizou pesquisas e leu sobre a vida de Luísa Mahin, escrava africana que foi mãe de Luís Gama (1830-1882), poeta e abolicionista brasileiro, além de outros documentos e estudos históricos sobre a Revolta dos Malês – mobilização promovida por escravos em Salvador em 1835.

“Não há um fato em si que me levou a escrever sobre Kahinde, mas essa história coletiva de pessoas que tomaram o destino nas próprias mãos e não foram agentes passivos diante da escravidão, como foi o caso de Luísa Mahin e várias outras mulheres”, afirma Gonçalves.

Agenda

O quê. Ana Maria Gonçalvez participa do Ofício da Palavra

Quando. Hoje, às 19h30

Onde. Museu de Artes e Ofícios (praça da estação)

Quanto. Entrada franca

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave