Ingerindo fé e autoconfiança

iG Minas Gerais |

Ilustração Hélvio Avelar
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Com a mesma intenção da semana passada, assisti a mais um filme em casa e cá estou pronto pra indicá-lo, porque é uma boa sugestão de drama também. Indicado a quatro Oscars deste ano, “Philomena”, do diretor Stephen Frears, conta a história da personagem-título (Judi Dench), que, na Irlanda dos anos 50, engravidou ainda menina e foi parar num convento. Lá, as freiras cuidariam da criança, em troca do seu trabalho, fazendo com que ela concordasse em oferecê-la para adoção. O menino foi adotado por norte-americanos e, 50 anos depois, Philomena ainda se via infeliz e culpada por não ter procurado e reencontrado seu filho. Até que ela encontra Martin (Steve Coogan), um jornalista político que tinha acabado de ficar desempregado e procurava algo novo e instigante para fazer – e esse investigativo projeto de “interesse humano” lhe cai como uma luva. Ele vende a ideia da matéria para uma editora e vai à procura do filho de Philomena ao lado dela, numa trama de descobertas, envolvendo, sobretudo, a religião.

O melhor desse filme é que ele traz consigo uma fórmula que, particularmente, me cerca de todos os lados: o roteiro é muito bem-encaixado, redondinho, cheio de flashbacks, e tem como maior mérito deixar a história acontecer de forma quase casual, com ênfase na convivência dos dois personagens antagônicos, embalados por uma trilha deliciosa e com espaço para pitadas de humor. Ela, muito católica, se bobear, perdoa até as freiras carrascas que venderam sua cria. Ele, ateu de carteirinha, fica indignado com a postura dela e com a atitude maligna das religiosas. Talvez por isso ele queira tanto ajudá-la. E por mais que a história da protagonista seja triste e comovente, o filme não é daqueles de morrer de chorar. É um drama no ponto. Pronto pra te emocionar.

A emoção se constrói no sofrimento de Philomena. Poxa, imagine passar a vida inteira sem notícias do filho? Às vezes, ficamos horas ou dias sem um contato com alguém, e o surto é imediato, dá pra imaginar se forem décadas? Segura em sua fé, Philomena passou todos esses anos até bem. Todo mundo precisa de algo a acreditar, de um sentimento abstrato para o concreto se realizar. E ela seguiu assim, até não conseguir mais, quando os questionamentos chegaram ao limite. Pois, a partir daí, ela chegou a um ponto não de dúvida na sua fé, mas de busca de autoconhecimento da sua história. Não estou querendo dizer que demoremos 50 anos para nos questionar. Cada um tem seu tempo. Tempo de colocar o foco no seu interior e enxergar que o futuro, seja ele daqui 15 minutos ou daqui 15 anos, depende só daquilo que acreditamos.

Martin, em um momento do filme, cita o poeta inglês Tess Elliott: “O fim da nossa exploração será chegar aonde começamos e perceber o local pela primeira vez”. Devemos nos explorar, nos pesquisar, nos examinar, nos analisar, nos estudar... Se não fizermos isso, quem mais vai fazer? O novo está logo ali. Basta um gole de paciência, um trago de perseverança, um sorvo de fé e esperança para o resultado ser uma bela digestão de autoconfiança, que, pra você, é o maior alimento que já pôde ingerir.

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