Cem tons de preconceito

iG Minas Gerais |

Tenho sérias dificuldades com as ciências exatas e sou um ignorante em física. No colégio, tive de fazer das tripas coração para não ser reprovado. Com o passar do tempo, vi que minhas dificuldades não eram burrice, apenas preguiça mental e saudade dos meus carneiros e cavalos, que haviam ficado na fazenda. Hoje, já vivendo a idade provecta, ainda não sei se isso me prejudicou. Estudei direito, e deu para o gasto. Posso até advogar. Sou uma pessoa encantada com o infinito e o impossível e, assim, tenho motivos para pensar pelo tempo que Deus me der, sem chegar a conclusões, o que, definitivamente, faz de mim um curioso. Passo a noite em claro sempre que uma descoberta do telescópio Hubble me deixa impressionado. O universo me fascina e me apavora ao mesmo tempo. Passei uns dias de tristeza, e ainda não estou bem, com a morte de um de meus melhores amigos, o amigo-irmão Zé Cachorrinho. É que a morte tem mais motivos que razões para chegar e, por isso, talvez não seja traiçoeira como dizem. Entre um fato e outro, participei de um almoço de rotina com amigos, e dois deles mal engoliram qualquer coisa, engalfinhados em uma discussão sobre a distância de um planeta que o famoso telescópio descobriu. O tal planeta tem características parecidas com as da Terra e, assim, permite que se especule se ali não existiria vida semelhante à nossa. Sim, o mote serve para debater sobre a vida, mas a discussão era sobre a distância. Enquanto um dizia 500 mil anos-luz, o outro engrossava as veias do pescoço para dizer que eram “apenas” 500 anos-luz. Lá pelas tantas, outro amigo, que, até então, nada tinha falado, perguntou: “Escuta aqui, tem alguém indo para esse planeta? Que diferença faz se for uma ou outra distância?”,. Em uníssono, nós todos respondemos com uma boca só: “Nenhuma, pô!”. E ficamos a rir com cara de besta, pela “bestagem” da conversa. Assim é o preconceito, na conceituação politizada em voga hoje no Brasil. Einstein, que sabia das coisas, teria dito: “Época triste é a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”. A bomba atômica é um preconceito de superioridade. Eu disse no começo que não entendo de física, mas posso entender a fraqueza humana. Nenhuma atitude da humanidade é mais forte que as consequências da ignorância do preconceito. Todos nós, brancos, negros, amarelos ou descorados, nascemos e vivemos com o mesmo destino: morrer! Morrer não é uma fatalidade. É a finalidade, e nós, muitas vezes, nos esquecemos disso. Daniel Alves, que, com desdém, comeu a banana que foi jogada no campo com a finalidade de afrontá-lo, talvez tenha tido um gesto que possa, no futuro, amainar o preconceito racial, pelo menos no futebol. O preconceito, que começou com a maçã de Adão e Eva, pode ter algum significado com a banana de Daniel. Filosofia de boteco também vale em tempos de PT, ex-Luiz, Rose, “et caterva”.

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