A forte dramaturgia mineira

Mais de 15 peças do FIT-BH foram escritas aqui, dentre elas “S/Título, Óleo sobre Tela”, que entra em cartaz hoje

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Cena. A peça “S/Título, Óleo sobre Tela” foi escrita por Sara Pinheiro, em que ela também atua
Joao Luiz Silva Jr divulgacao
Cena. A peça “S/Título, Óleo sobre Tela” foi escrita por Sara Pinheiro, em que ela também atua

Se ainda restava dúvida do quanto a dramaturgia belo-horizontina vem germinando nos últimos tempos, a seleção de espetáculos locais do 12º FIT-BH é categórica. Textos de fora encontram pouco espaço; a exceção de Daniel Veronese e Luigi Pirandello. Enquanto isso, mais de 15 peças foram escritas por autores daqui. Há veteranos como Eid Ribeiro, algumas criações coletivas e uma nova geração representada por Assis Benevenuto, Marina Viana, Daniel Toledo, Byron O’Neill e Sara Pinheiro.

Aos 28 anos, Sara é uma das que mais recentemente se uniu a esse grupo de jovens autores montados na cidade. Ela já havia assinado a dramaturgia da peça “A Mudança”, com a Cia. do Chá, da qual faz parte. Mas a toada era outra. O texto vinha de improvisações em sala de ensaio. “Nessa época, a gente estava em uma investigação bem corporal; a palavra não era um norte para mim”, lembra a atriz e escritora.

“S/Título, Óleo sobre Tela” marcou uma virada como dramaturga. A peça, que estreou em março e volta ao cartaz hoje e amanhã, às 19h30, na Funarte MG, é a primeira montagem de um texto seu criado a priori. E a escrita da mineira já causou o interesse do grupo Teatro Invertido, que parte de um texto inédito dela no processo criativo do seu próximo espetáculo, a ser dirigido por Yara de Novaes e Mônica Ribeiro.

Político. Sara também atua em “S/ Título...”, mas a direção fica a cargo de Gustavo Bones (do Espanca!) e Mariana Maioline. O texto lhe foi encomendado pela Cia. do Chá às vésperas de uma viagem ao Paraguai. “Era a época dos protestos”, lembra. Impactada pela agitação política, ela ouviu por lá rumores de que o quadro da independência daquele país seria falso. “Tinha tudo a ver com o que estava acontecendo no Brasil”, diz.

A peça nasceu com a situação de um grupo de políticos e burocratas reunidos para decidir como solucionar a possível ilegitimidade da pintura que representa a independência de uma cidade. Com isso, põe-se em discussão temas ligados à arte e à política. “Esse texto foi uma surpresa para todo mundo, porque sempre fui considerada mais existencial. No ‘S/ Título’, foco no diálogo e em outras questões. E os diretores potencializaram esse lugar político que já existia”, conta.

Processo. Ao Teatro Invertido, Sara entregou “Noturno”, escrito especialmente para o grupo, quando este procurava peças latino-americanas para montar. “Iniciamos o processo a partir do estudo desse texto”, diz Leonardo Lessa, ator do Invertido. Segundo ele, a companhia já havia lido cerca de 80 textos de países vizinhos, até que Yara de Novaes sugeriu buscarem mais perto. “Ela disse que estava sabendo de um movimento de dramaturgia na cidade, mas só ouvia falar, estava na hora de conhecer”, conta.

Desta vez, Sara coloca em foco colegas de classe média alta que encontram-se num churrasco de fim de tarde, quando o mundo todo já acabou, exceto aquele lugar. O argumento novamente veio de algo que ouviu no Paraguai: “aqui é tão atrasado que, se o mundo acabar, vai demorar 15 anos para chegar”, brincou um conhecido. “O fim do mundo mistura o lado existencial com questões políticas sobre que mundo é esse de que estamos falando”, diz Sara.

Agenda

O quê. “S/Título, Óleo Sobre Tela”, da Cia. do Chá

Quando. Hoje e amanhã, às 19h30

Onde. Galpão 1 da Funarte MG (r. Januária, s/n)

Quanto. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

Enquanto isso

Absurdo. Outro dramaturgo mineiro cujo texto estreia hoje no FIT-BH é Byron O’Neill, autor e diretor de “Isso É para a Dor”. O espetáculo da Primeira Campainha é um produtivo encontro entre o trio Mariana Blanco, Marina Arthuzzi e Marina Viana e o universo do absurdo que Byron galga com sua Cia. 5. Cabeças. Inseridas em um refúgio (de uma sociedade em tempos de perseguição e da suposta lógica que a rege), as três criam representações alegóricas permeadas por críticas à sociedade nos dias atuais. A peça pode ser vista hoje e amanhã, às 21h, no Teatro Bradesco. Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia).

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