Busca que produz mudanças

“Uma Canção É Pra Isso”, produção realizada entre Brasil e Alemanha, tem história ambientada em Ouro Preto

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Gravavação. Uma das cenas rodadas anteontem na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto
LEO FONTES / O TEMPO
Gravavação. Uma das cenas rodadas anteontem na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Ouro Preto

OURO PRETO. Vestido com uma camisa vermelha na qual estampava a frase “Be the hero of your own story” (Seja o herói de sua própria história, em tradução livre), o diretor alemão Ansgar Ahlers parecia sintetizar nessas palavras parte das ideias que leva para o filme “Uma Canção É Pra Isso”. Em Ouro Preto, onde permanece até o dia 20, ele filma o longa-metragem que inaugura em Minas Gerais a realização de parcerias internacionais para a realização de produções cinematográficas por meio do edital Filme em Minas e da instituição Minas Film Comission (com produção executiva da Conspiração Filmes), colocando o Estado como destino de criações audiovisuais nacionais e internacionais. 

Após encerrar uma das etapas de trabalho que começou às 4h da manhã, anteontem, Ahlers explicou que a ficção, ambientada na cidade barroca e também na Alemanha, tem como um dos principais temas a transformação de Marten (Edgar Selge), um professor de música alemão, e de um grupo de garotos encontrado por ele no local. Essa mudança acontece especialmente a partir da superação das diferenças entre duas culturas, uma vez que os garotos de um reformatório se tornam seus alunos e servem como um contraponto a esse olhar europeu.

“Marten chega a Ouro Preto dos dias de hoje e leva aos garotos à música clássica que, aos poucos, ele descobre não ser importante impor da maneira tradicional que havia aprendido. Seus alunos improvisam durante as aulas e criam novas interpretações para as melodias de Bach que ele ensina. É esse ingrediente que, depois, vai fazer com que Marten os leve para participar de uma competição de música barroca na Alemanha”, conta Ansgar Ahlers.

Ancorada nessa relação de trocas mútuas, a produção cinematográfica surge a partir do próprio encantamento do diretor com a expressões do barroco brasileiro. Antes de resolver rodar as cenas em Ouro Preto, ele diz ter tido contato com a história de viajantes europeus que vieram ao Brasil e trouxeram de volta composições barrocas que ainda na época causaram grande impacto no público de lá.

Foi a partir disso que lhe veio a ideia de refazer esse percurso, trazendo um alemão ao país, em busca de uma partitura original de um dos filhos de Bach, considerada perdida há cerca de dois séculos. “Eu venho a Ouro Preto, anualmente, desde 2008. Eu sempre gostei muito daqui e percebi que o cenário era fantástico para o filme. Ainda hoje grande parte dos alemães, por exemplo, não sabe da existência dessas cidades barrocas no Brasil. O que é muito interessante, então, é a possibilidade de fazermos a comparação entre o barroco brasileiro e o alemão”, pontua Ahlers.

Elenco. Previsto para ser lançado no primeiro semestre de 2015, “Um Canção É Pra Isso” tem no elenco Marilia Gabriela, a mineira Thays Garayp, Stepan Necerssian e o baiano Aldri Anunciação. Em seu quarto papel no cinema, Aldri vive Cândido, um dos funcionários do reformatório onde se encontram as crianças. Descoberto por um dos produtores do longa que viu a peça “Namíbia, Não!”, dirigida por Lázaro Ramos, o ator soteropolitano diz que seu personagem é quem auxilia Marten na busca pelo documento.

“Quando chega em Ouro Preto o professor consegue a partitura, mas ela é roubada e fica perdida na cidade. Cândido o ajuda nessa aventura, porém pede que em troca ele dê aulas às crianças do reformatório. Ele entende que a música pode interferir positivamente na vida das crianças e isso de fato acontece, ao mesmo tempo em que elas mudam o jeito meio duro de Marten perceber as coisas”, observa Aldri Anunciação.

Thays Garayp, que interpreta Dulce, inspetora da instituição disciplinar, vê esse processo de transformação como um dos trunfos do projeto. “Eu estou muito contente de trabalhar nesse filme porque ele lida com algo em que eu realmente acredito. A música ali representa essa possibilidade que as artes têm de proporcionar outras perspectivas em nós mesmos. Aquelas crianças e o professor são tocados de forma profunda e isso é um dos grandes méritos de ‘Uma Canção É Pra Isso’, diz ela.

Para Stepan Nercessian, que representa Sr. Vargas, diretor do reformatório, as escolhas feitas pelo diretor colaboram para que se atinja esse efeito. Conhecido internacionalmente pela qualidade de seus curta-metragens, Ahlers, ao seu ver, evita reforçar possíveis clichês. “Eu estou gostando muito da maneira delicada como ele filma. Ansgar não chegou aqui e começou a trabalhar como se fosse um forasteiro. Ele vem dedicando tempo para se envolver com o lugar e isso resulta em uma visão muito humana. Acho até que ele pode revelar alguns ângulos da cidade e sua população que ainda não havíamos notado”, observa Stepan Necerssian.

Ainda sobre a história levada às telas por esse diretor, o ator frisa outra característica que lhe chama atenção. “Algo bonito, pelo que percebi nesse filme e nos outros que Ansgar já dirigiu, é a preocupação dele em exaltar o lado bom das pessoas. Isso hoje é quase uma raridade, pois constantemente ouvimos que a humanidade caminha para um cenário que não tem mais salvação”, conclui o ator.

Incentivo

R$ 300 mil reais foi o montante aprovado no edital 2011/1012, do Filme em Minas, na categoria Minas Film Commisson Incentivo ao Cinema Nacional, destinado a produção do filme

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