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Segunda parte da mostra ‘Cinema e Rock’n’roll’ traz obras de ficção que traduzem em imagens a subversão do gênero

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Camaleão. Longa “Não Estou Lá” reimagina as várias facetas de Bob Dylan em personagens vividos por vários atores, como Cate Blanchett
Europa
Camaleão. Longa “Não Estou Lá” reimagina as várias facetas de Bob Dylan em personagens vividos por vários atores, como Cate Blanchett

Para a segunda parte da mostra “Cinema e Rock’n’roll”, que começa hoje e vai até dia 21 no Humberto Mauro, no Palácio das Artes, a curadoria selecionou 14 obras de ficção. Se em sua primeira edição, o foco foi em filmes que traziam a história e o registro do rock para a tela, seja em documentários ou em apresentações ao vivo, agora é a vez dos longas que traduzem a fúria e a subversão do gênero musical para a linguagem audiovisual.

É exatamente por esse critério que os curadores ignoraram produções que simplesmente tentaram fazer uma biografia de melhores momentos – ou “biografia wikipedia” – de seus objetos. “Me incomoda um pouco quando você pega um artista como se fosse possível resumir a vida de alguém em duas horas, dar conta da complexidade, quando eles são interessantes justamente por serem pessoas complexas e nada sumarizáveis”, argumenta o curador da sala Rafael Ciccarini.

O melhor exemplo dessa impossibilidade é o longa “Não Estou Lá”, dirigido por Todd Haynes em 2007. Em vez de tentar sintetizar ou encontrar um sentido na vida de Bob Dylan – um artista camaleônico cuja identidade muda não somente de uma fase para outra de sua carreira, mas de uma música e de um show para outro – o filme transpõe para a sétima arte essa multiplicidade de personas, verdades e mentiras. “O Dylan inventava histórias sobre si mesmo, dizia coisas falsas em entrevistas, assumia a música como se fosse uma verdade biográfica dele, mas não é”, reflete Ciccarini, descrevendo exatamente o que “Não Estou Lá” revela em sua estrutura altmaniana.

Do mesmo Haynes, a mostra apresenta também “Velvet Goldmine”. A obra transpõe outro universo para o cinema – desta vez, o glam rock dos anos 1970 – reimaginando ficcionalmente figuras como Iggy Pop, David Bowie e cia., vividos no longa por nomes como Ewan McGregor, Christian Bale e Jonathan Rhys-Meyers.

“É um dos filmes mais fortes da seleção porque foge desse paradoxo do cinema comercial de que você tem que fazer uma produção agradável, palatável, careta sobre pessoas cujo brilho foi exatamente fugir dessas convenções”, defende o curador.

Seguindo essa linha anticonvencional, uma das traduções mais ousadas é a feita pelo cineasta Gus Van Sant no longa “Últimos Dias”, de 2005. No filme, estrelado por Michael Pitt, o diretor tenta levar para a tela o estado depressivo e catatônico de Kurt Cobain nos dias que antecederam o seu suicídio.

Dentre os títulos menos conhecidos da seleção, Ciccarini destaca o obscuro “Privilégio”, dirigido por Peter Watkins em 1967. Retrato do cantor ficcional Steven Shorter (Paul Jones), o filme acompanha a ascensão meteórica ao estrelato de um jovem, que passa a ser manipulado com fins políticos e sociais. “É uma produção bastante crítica, especialmente da figura do pop star”, comenta o curador.

Do lado mais leve, a mostra apresenta dois marcos do cinema musical: o hilário “Isto É Spinal Tap”, que foi um dos definidores do gênero mockumentary; e o clássico “Help!”, dos Beatles, longa que pode ser apontado como um dos maiores responsáveis pela invenção do videoclipe.

A plenos vapores. Logo após o fim da segunda etapa de “Cinema e Rock’n’roll” (que pode ter um terceiro capítulo com produções cujas trilhas musicais foram assinadas por grandes nomes do rock), o Humberto Mauro já engata no dia 22 uma nova mostra da série grandes retrospectivas. O homenageado desta vez é o próprio patrono da sala, o cineasta mineiro Humberto Mauro.

A retrospectiva vai até o dia 12 de junho. Em seguida, no ritmo da Copa do Mundo, a sala apresenta a mostra “Estética do Jogo”, com filmes que abordam o universo do esporte. Ainda neste ano, a aguardada retrospectiva da filmografia de Stanley Kubrick está agendada para agosto. E em setembro, o tradicional Festival Internacional de Curtas toma conta do espaço.

Programe-se

“Cinema e Rock’n’roll”

Quando. de hoje a 21/5

Onde. Cine Humberto Mauro – avenida Afonso Pena, 1.537, subsolo

Programação completa. www.fcs.mg.gov.br

Entrada gratuita

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