A invenção da infância

Companhia Espanhola La Tristura coloca atores de 13 anos para representar adultos no espetáculo “Materia Prima”

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli Especial para O TEMPO |

Crédito Mario Zamora
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[NORMAL_A]“Uma criança é como um estrangeiro”, diz Pablo Fidalgo, um dos criadores do grupo madrilenho La Tristura. A ideia que se faz de criança não foi sempre a mesma. Até o século XVI, não havia nem mesmo o sentimento de infância, ao qual atribuímos a inocência. Saber disso é importante para entender as crianças como sujeitos histórica e socialmente constituídos, como as veem os integrantes do grupo espanhol em passagem por Belo Horizonte pelo FIT-BH.

O La Tristura havia feito da peça “Actos de Juventud” (2010) a segunda parte de uma trilogia sobre educação sentimental. Decidiu então, na parte derradeira, recriar os dramas adultos com crianças no lugar dos atores originais, mantendo a estrutura e vários monólogos autobiográficos. Foi quando Ginebra Ferreira, Gonzalo Herrero, Siro Ouro e Candela Recio, então com 9 anos (hoje, têm 13), entraram no grupo para atuar em “Materia Prima”, em cartaz a partir de hoje no Teatro Francisco Nunes.

“Quando começamos a fazer a peça com os garotos, o texto foi se transformando naturalmente”, diz o codiretor Celso Giménez, um dos quatro integrantes adultos da companhia. Enquanto em “Actos de Juventud” dizia-se “pensei que a juventude seria de outra maneira”, em “Matéria Prima” a frase virou “pensei que a vida seria de outra maneira”. “Suponho que nosso caminho para sermos mais felizes passa sempre pelo pensamento crítico. Eles falam de si e de nós. Esperamos que, nesse diálogo, estejam falando do que é a vida para nós agora”.

Cabem aos dois garotos e duas garotas reflexões e gestos típicos de adultos, feitos de modo sério e potencialmente perturbador. É uma inversão etária que, certamente, provoca deslocamento no nosso modo de pensar a infância em si e a nossa própria experiência particular de construção de identidade ao longo da vida.

Questionados se não “perdem” a infância, os pequenos atores respondem celebrando a possibilidade de viajar, conhecer pessoas e aproveitar a vida desde cedo. Já a preocupação dos adultos do grupo diminuiu com o convívio. “Agora que já são para nós uma mistura estranha de amigos, irmãos e companheiros de viagem, as implicações éticas estão implícitas em cada coisa que fazemos, mas não obsessivamente como no princípio. Eles são pessoas, bastante similares às demais, só que em outro momento de suas vidas”, diz Giménez.

Realidade e ficção. Por trás da decisão de colocar crianças em cena, há o desejo artístico por um efeito de atrito entre realidade e ficção. A opção por atores cujos corpos não parecem se encaixar no papel que representam é uma estratégia comum no teatro contemporâneo para evidenciar o modo como os atores usam seus corpos reais, sem deixar que os espectadores se iludam totalmente com a história dos personagens, e, com isso, valorizem a presença comum entre atores e público.

“Gostamos de pensar que, quando alguém sobe no palco, segue sendo ele mesmo, e que isso seja percebido. Que haja um perigo latente. Dar a sensação de que o ator poderia deter a cena e só recomeça-la se desejar. Que o espectador não tenha clareza de quem escreveu o texto e quem o diz. Se é dito porque estava escrito em um papel ou porque é exatamente o que se sente”, diz Giménez.

O La Tristura procurou os atores mirins em escolas onde houvesse a prática de montar peças de teatro com os alunos. “Não nos importavam suas aparentes habilidades ou capacidades expressivas, só se poderiam manter uma conversa com certa inteligência e sensibilidade. Cremos que tudo mais pode ser conseguido com trabalho”, conta Giménez. Nesse caso, trabalho não quer dizer estritamente ensaiar. “Tentamos passar o tempo juntos com eles, ver filmes, falar da vida. É um trabalho que nasce fortemente da experiência vital. Era imprescindível que eles também tomassem parte disso, que tivessem muitíssimo controle e conhecimento sobre o que fazem”, diz.

Agenda

O quê. “Materia Prima”, com La Tristura

Quando. Hoje, às 20h; 4ª e 5ª, às 15h; 6ª e sáb., às 20h; dom., às 19h

Onde. Teatro Francisco Nunes (Parque Municipal)

Quanto. R$ 20 e R$ 10 (meia)

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