Mensaleiros viram consultores de outros detentos na cadeia

Romeu Queiroz e Rogério Tolentino prestam ajuda jurídica informal a condenados em Neves

iG Minas Gerais | RODRIGO FREITAS |

Rotina. Romeu Queiroz e Rogério Tolentino saíam diariamente do presídio em Neves para trabalhar
Pedro Vilela - 15.9.2003
Rotina. Romeu Queiroz e Rogério Tolentino saíam diariamente do presídio em Neves para trabalhar

Em dezembro do ano passado, quando chegaram à penitenciária José Maria Alkimin, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, Romeu Queiroz, ex-deputado federal, e Rogério Tolentino, ex-advogado de Marcos Valério, temiam a reação dos presos. Condenados a mais de seis anos cada um por participação no mensalão – o maior caso de corrupção da história do Brasil –, eles receavam que a repercussão do caso fizesse com que o clima com os outros detentos fosse tenso.

Passados cinco meses, ambos se dizem “ambientados” na penitenciária, aonde iam apenas para dormir, uma vez que estavam trabalhando na empresa RQ Participações, de propriedade de Queiroz. Na última semana, o presidente Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, cassou o direito de ambos de trabalhar fora do presídio.

Os dois contam que se transformaram em “consultores jurídicos” dentro do presídio José Maria Alkimin. Não raramente, dizem, são abordados por outros detentos em busca de auxílio especializado. Assim como Tolentino, Queiroz é advogado.

“Vira e mexe, quase todos os dias, alguém chega para a gente e pede ajuda. Sabem que somos presos no processo do mensalão, sabem que somos advogados e, por isso, pedem auxílio. Muitas vezes, falam: ‘Ô doutor, eu queria ver como fica a minha progressão de pena’. Às vezes, perguntam: ‘Se eu estudar, como fica a diminuição da minha pena?’. Eles são pessoas que precisam de esclarecimento e acabaram encontrando em nós quase uma consultoria jurídica”, contou Romeu Queiroz, quando ainda estava em seu escritório, em Lourdes, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

“Na maior parte das vezes, eles nos fazem essas perguntas quando a gente está na fila, na hora de sair do presídio para vir trabalhar, na parte da manhã, ou quando eu chego, depois do expediente, à noite. Faço o que posso para explicar aos nossos colegas quais são os direitos que eles têm”, confidenciou Tolentino, que trabalhava durante o dia numa sala ao lado de Queiroz, atuando oficialmente como auxiliar jurídico, uma vez que não pode exercer a profissão de advogado enquanto estiver cumprindo pena.

À época da entrevista, Queiroz respondia pela gerência de sua empresa. “Criamos um convênio entre a minha empresa e a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) para que pudéssemos trabalhar”, conta o ex-deputado, que, além de Tolentino, chegou a empregar um outro detento, responsável por manutenção e serviços gerais no prédio onde funciona a administração da RQ Participações, conglomerado de empresas dos setores automotivo e agropecuário. “O Francisco é uma das boas pessoas que eu conheci lá na José Maria Alkimin”, revela o ex-parlamentar.

QUALIFICAÇÃO. Queiroz e Tolentino têm aproveitado o tempo livre dentro da cadeia, à noite e aos fins de semana, para se dedicarem a cursos de qualificação profissional. “Além de uma oportunidade para a gente se reciclar, é também uma chance para reduzirmos um pouco a pena”, afirma Queiroz, mostrando os certificados dos 13 cursos que já fez, a maioria no Sebrae. “Vale a pena fazer esses cursos. Isso ajuda a matar o tempo livre quando a gente está na carceragem”, explica Tolentino.

Simplicidade Sem ostentação. Antes da revogação do direito de trabalhar fora do presídio, Romeu Queiroz atuava em um escritório simples. Havia duas mesas, poucos móveis e um laptop para o trabalho.

Quem é quem Romeu Queiroz. Segundo os autos, o ex-deputado federal pelo PTB recebeu R$ 350 mil do valerioduto em troca de apoio ao governo. Foi absolvido pel<CW-23>os colegas e tentou se reeleger, sem sucesso, em 2006. Em 2010, foi eleito deputado estadual. Em setembro de 2012, foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com pena de seis anos e seis meses de prisão. Rogério Tolentino. O advogado tentou destruir provas. Braço direito de Marcos Valério e seu contato no Banco Rural, se utilizava de seus contratos com empresas privadas para operacionalizar o repasse de dinheiro do mensalão. Foi condenado por lavagem de dinheiro e corrupção ativa a seis anos e dois meses de cadeia.

Além de trabalhar, ex-deputado começou a cursar teologia Para ajudar ainda mais a passar o tempo, o estudo. Assim tem sido a rotina do ex-deputado Romeu Queiroz. Além dos cursos de qualificação profissional, ele também resolveu cursar teologia, em faculdade cujo nome ele prefere não revelar. Todos os dias, após o trabalho, Queiroz intensifica o estudo e segue para as aulas no curso universitário. “Tem me feito muito bem poder estudar mais a fundo as questões de Deus e a filosofia sob um novo prisma, um novo olhar”, afirmou o ex-parlamentar. Queiroz, que já havia dito à reportagem de O TEMPO em janeiro que sentia “alívio” por, enfim, estar cumprindo sua pena, reafirmou esse sentimento. “Estou aliviado. Foi um processo doloroso, principalmente para a minha família”, frisou o ex-deputado.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave