Engraçadinha, afiada e um pouco feliz demais

Após cinco anos e dois filhos, Lily Allen tenta reencontrar a língua afiada em ‘Sheezus’

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Maturidade. Lily Allen se esforça para encontrar o sarcasmo na vida doméstica no novo álbum
Warner / Divulgação
Maturidade. Lily Allen se esforça para encontrar o sarcasmo na vida doméstica no novo álbum

Em “Sheezus” (Warner, R$ 32,90), Lily Allen sofre do mesmo mal de que Alanis Morissette padeceu em seu último álbum, “Havoc and Bright Lights”. A cantora inglesa que fez sua fama criticando e reclamando da vida está feliz – casada e com dois filhos. E como já cantou o Rilo Kiley, “ninguém quer pagar para ver sua felicidade”.

Esse novo “detalhe” se reflete em um dos momentos mais engraçados do CD. Em “Life for me”, Allen – em crise por estar em casa cuidando dos bebês enquanto os amigos postam fotos da balada no Instagram – canta “eu não estou reclamando, mas eu não dormi nada noite passada. Bem, na verdade, eu estou reclamando”.

Não há como negar. A cantora não é mais a inglesinha espevitada de 20 anos sem papas na língua. Aos 30, ela é uma mãe de família, com medo de reclamar da rotina doméstica.

Essa nova persona gera bons momentos em “Sheezus”, como na já citada “Life for me”. E se a forma como ela esfrega sua alegria conjugal em vários momentos do CD pode ser enjoativa, ela tem seu melhor momento na divertida e sincera declaração de amor “L8 Cmmr”.

Por outro lado, isso também cria momentos que constrangeriam a Lily de “Alright Still”. O pior exemplo é quando a cantora compartilha bem mais informação sobre sua vida sexual com o marido do que o público gostaria de saber na balada “Close Your Eyes”. “Você me deixa louquinha, estacione na porta de trás”, ela sussurra ao som de um arranjo de trilha de motel nos anos 1980, tentando fazer o que Beyoncé conseguiu em “Drunk in Love” e soando como uma garotinha usando a lingerie da irmã mais velha.

Beyoncé, aliás, também aparece na faixa-título, em que Allen tenta provar que ainda mantém a língua afiada de “Fuck You” e “Smile”. Reflexão metalinguística, “Sheezus” (por sinal, uma zoação de “Yeezus”, título do CD mais recente de Kanye West) fala sobre o medo de voltar aos holofotes depois de cinco anos parada, com direito a alfinetadas a Rihanna, Katy Perry, Lady Gaga e Lorde no refrão. Seria um clássico instantâneo da cantora, se a música fosse boa. Não é.

Mesmo quando o sarcasmo encontra um arranjo mais grudento e digno de seus trabalhos anteriores, a cantora encontra um jeito de meter os pés pelas mãos. No primeiro single do CD, “Hard Out Here”, Allen critica o sexismo do hip hop contemporâneo, com a bela farpa “esqueça os colhões e crie um par de tetas. Não anda fácil aqui para uma vadia”. O clipe, porém, trouxe várias mulheres negras em trajes mínimos rebolando, o que levou ao questionamento se ela não estaria reforçando o imaginário que queria criticar. “URL Badman” e “Insincerely Yours” trazem o mesmo problema, com a cantora apontando dedos para idiossincrasias da cultura pop contemporânea das quais ela também é culpada.

No fim das contas, a melhor canção de “Sheezus” é “Our Time”. Os poucos mais de quatro minutos são o momento do álbum em que a inglesa parece mais sinceramente disposta a narrar uma história comum a toda uma geração que migrou dos 20 para os 30 com ela (leia-se, menos obcecada com o próprio umbigo). Comemorando uma noite livre, ela canta sobre aumentar o som, cair na noite e ficar acordada até o dia amanhecer. Isso tudo, ao som de um arranjo lento e nada barulhento. Porque, afinal, ninguém tem mais 20 e poucos anos.

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