Eliane Brum em sua vida viva

Em obra que lança nesta segunda em BH, a jornalista e escritora lida com as palavras como forma de dar sentido à existência

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

Palavras como trajetória. Jornalista Eliane Brum expõe sua jornada pessoal através da escrita
Lilo Clareto
Palavras como trajetória. Jornalista Eliane Brum expõe sua jornada pessoal através da escrita

“A vida sem palavras é o retorno da escuridão”. A frase define muito do sentimento transmitido pela nova obra da premiada jornalista e escritora gaúcha Eliane Brum. A autora já lançou cinco livros, quatro de não ficção e um romance. Mas é em “Meus Desacontecimentos”, a ser lançado em BH nesta segunda, no Sempre Um Papo, que um dos nomes mais conhecidos da reportagem brasileira mais se expõe. “Não sou a personagem principal desse livro. A palavra é. É ela que uso para buscar em minha infância os fios para entender a palavra na minha trajetória. Sou apenas um ‘eu’ que está construindo um passado no presente e também se lançando no futuro”, diz Eliane.

E é através da palavra que a autora preenche sua existência de sentido. A esvazia e repõe. “As palavras me iluminam. São minha possibilidade de construir minha vida viva. Elas também são uma fonte de angústia e me lançam constantemente ao vazio. Pois são insuficientes para dar conta da vida”, afirma.

É que para autora “Quando tudo começou, era escuro”. É assim que ela começa a compartilhar lembranças duras da infância, como o fato de sua mãe ter perdido a filha aos cinco meses de idade, e esta ser a menina que nascera antes dela. “Nasci não de um, mas de vários túmulos”, descreve-se. Ou o fato de ter de lidar com as consequências da maternidade prematura – aos 15 anos– no interior, e uma das piores delas: o momento de comunicar aos pais. “A morte é muito fundadora na minha vida e a palavra vem para me resgatar”, diz a escritora.

Ser jornalista, uma escolha que para Eliane em algum momento pareceu um acaso, acaba então ganhando outro sentido. “Ser repórter é a melhor profissão do mundo. Os desacontecimentos vêm da minha busca nesse mundo. Isso parte de uma percepção de que algumas vidas acontecem e outras desacontecem. É uma escolha política e cultural. Por que algumas vidas e algumas mortes valem mais que outras? Eu sou uma repórter do desacontecimento. No início foi uma escolha inconsciente, depois passou a ser política. A minha vida, afinal, é também um desacontecimento”, diz.

Timidez e exposição. Eliane é uma pessoa tímida e tem dificuldade com a palavra oral, mas afirma ter um pacto com a escrita. “É minha mediação com o universo mais interno e mais externo. Eu passei a vida pedindo que as pessoas abrissem a porta de suas casas para mim. Não tenho o direito de pedir o que não posso dar. Toda vez que saio à rua para uma reportagem faço o seguinte exercício: ‘se me fizessem a pergunta que farei, eu responderia?’”, conta.

E ao doar-se ao mundo em retribuição ao que tem pedido, Eliane tem tido um retorno bem positivo (não só) sobre sua obra. “É como se o livro tivesse provocado nas pessoas uma busca por seus próprios desacontecimentos. Elas me procuram dizendo que partiram em uma jornada pessoal”, diz.

Agenda

O que. Eliane Brum no Sempre um Papo

Quando. Nesta segunda, às 19h30

Onde. Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. Entrada franca

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