Os possíveis diálogos da cena

O ambiente corporativo é ponto de partida para peça conta com interferências visuais, instalações e gambiologia

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Trabalho. Peça tenta revelar contradições do discurso edificante de uma ONG ambientalista que oprime seus funcionários
André hallak/divulgação
Trabalho. Peça tenta revelar contradições do discurso edificante de uma ONG ambientalista que oprime seus funcionários

Os flertes do teatro com outras áreas não são de hoje, mas esse desejo de aproximação incorre, algumas vezes, em utilizações episódicas, quase ilustrativas de determinado recurso. É realmente difícil ver um espetáculo que consiga realmente se “contaminar” por outra linguagem e estabelecer uma relação na qual não se sabe por onde e como o processo criativo foi conduzido.  

A peça “Fábrica de Nuvens”, com direção e dramaturgia de Daniel Toledo, no entanto, buscou essa aproximação antes do que costuma acontecer em outras produções. “De fato, a cenografia entrou relativamente cedo no processo de criação, e já entramos na sala de ensaios com boa parte do cenário montado. A ideia de incorporar recursos e elementos de artes visuais ao espetáculo veio de modo bem natural, e está muito relacionada à minha proximidade com alguns artistas que trabalham em campos como a performance, a videoarte, a gambiologia e a videoinstalação”, ressalta Toledo.

O artista conta como os elementos dialogam. “Enquanto a linguagem da performance nos ajuda a problematizar algumas ações banais relacionadas ao campo do trabalho, a gambiologia e a videoinstalação dão certa materialidade a questionamentos presentes no texto sobre o inconsequente desenvolvimento tecnológico da nossa sociedade e os excessos provocados por esse suposto desenvolvimento. Como importantes referências dessa cenografia, estão a instalação ‘Space Program: Mars’, do artista norte-americano Tom Sachs, e a estética da gambiologia do artista mineiro Leandro Aragão, que assina a direção de arte do espetáculo e empresta três videoinstalações ao cenário da peça – sendo uma delas inédita”.

“Fábrica de Nuvens” nasceu de uma cena curta que foi apresentada no Festival de Cenas Breves, de Curitiba. “A motivação central era lançar uma perspectiva crítica e bem-humorada em relação ao sentido – ou à falta de sentido – do trabalho nos nossos dias. Enquanto um dos personagens, Albert, apresentava ao público os nobres objetivos de uma bem-intencionada ONG ambientalista, a outra personagem, Margaret, confessava à plateia alguns aspectos ligados aos bastidores daquela instituição”, destaca o diretor.

Antes de virar espetáculo, a peça participou do projeto de leituras dramáticas Janela de Dramaturgia, quando pôde experimentar novos possibilidades para sua trama.

“Foi naquele momento que cheguei à estrutura final da dramaturgia, incluindo outra personagem, Janet, que repentinamente abandona seu posto de trabalho sem dar aos colegas qualquer tipo de explicação. A escolha por uma ONG ambientalista, nesse sentido, me pareceu interessante por radicalizar essas contradições entre discursos corporativos muito edificantes e rotinas de trabalho – e de vida – completamente esvaziadas de sentido.”, revela Toledo.

“Quero assistir”. Toledo lista aquilo que lhe interessa no festival, dentre eles o trabalho “Es sagt mir nichts, das sogenannte Draußen”, com texto assinado pela Sibylle Berg. “Uma autora nascida na Alemanha Oriental cuja obra ainda é toda inédita no Brasil. Além disso, tem o “Cine Monstro”, do Enrique Diaz. Daqui, eu indicaria ‘As Rosas no Jardim de Zula’ e ‘A Noite Devora Seus Filhos’, trazem discursos ao mesmo tempo íntimos e políticos muito contundentes”, conclui.

Agenda

O quê. “Fábrica de Nuvens”

Quando. Nesta segunda e nesta terça, às 21h15

Onde. Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto)

Quanto. R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada)

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