Rede de memórias em conexão

Programação começa nesta segunda em 86 municípios mineiros em meio a polêmica envolvendo greves e novas legislações

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Inhotim. Instituto oferece novos trajetos a partir de conexões de informação
ANGELO PETTINATI / O TEMPO
Inhotim. Instituto oferece novos trajetos a partir de conexões de informação

Não era o contexto em que o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) queria começar a 12ª Semana Nacional de Museus. Mas é compreensível que os servidores da Casa, do Ministério da Cultura e do Iphan usem a abertura da vasta programação nesta segunda para darem início também a uma greve por melhorias na carreira. Com isso, a Semana de cerca de 30 museus ligados ao Ibram em todo o Brasil pode ser comprometida.  

Seis deles ficam em Minas Gerais. Segundo o Ibram, o Museu da Inconfidência em Ouro Preto deve ter a programação prevista reduzida, já que vai contar com menos servidores. Já os eventos nos Museus do Diamante, em Diamantina; do Ouro, em Sabará; do Museu Regional de São João del Rey e da Casa dos Otoni, no Serro, dependerão da adesão ou não dos funcionários locais ao movimento.

“Os servidores sabem que a secretária executiva dos ministérios Ana Cristina Wanzeler se encontrou com representantes e já está abrindo conversações com o Ministério do Planejamento”, minimiza o presidente do Ibram Ângelo Oswaldo, que veio a Minas para a abertura oficial da Semana nesse domingo, em Congonhas, e participa de um debate nesta terça à noite, no Museu de Artes e Ofícios. Ele acrescenta ainda que o impacto da greve na programação da Semana é mínima, já que a enorme maioria das 1.337 instituições inscritas, com mais de 4.000 eventos, é de propriedade particular, municipal ou estadual. Desses, 750 estão em 172 museus mineiros – 43 deles, na capital (veja mais na página 2).

“A Semana não só envolve famílias, escolas e comunidades. Ela é uma estratégia para mobilizar museólogos, pesquisadores, engenheiros, arquitetos, educadores e arte-educadores ligados à área e incentivar a atividade museológica permanente”, defende Oswaldo. Neste ano, o tema “Coleções criam conexões” serve também para apagar outro fogo, ligado ao decreto 8.124, que regulamenta o Estatuto dos Museus.

O texto da legislação deu margem a uma interpretação, equivocada de acordo com o presidente do Ibram, de que o governo poderia se apropriar de coleções particulares ou direcioná-las obrigatoriamente para exposição em museus. “Ela permite somente que algumas coleções sejam declaradas de interesse público para salvaguardar sua memória”, explica Oswaldo.

Segundo ele, isso significa fazer um registro desses acervos, que poderão inclusive ser vendidos posteriormente por seus proprietários. Caso isso aconteça, o Ibram saberá quem foi o comprador e para onde foram as peças, “evitando uma pulverização que tem destruído coleções fantásticas. O sujeito passa uma vida inteira reunindo um material único, morre de repente, e o acervo é submetido a uma diáspora que, mesmo que ele ressuscite, não vai conseguir organizar de novo”, esclarece.

Conexões. A Semana vem destacar exatamente esse papel importante de repositor de memórias das coleções – não só artísticas, mas científicas, antropológicas, arqueológicas, paleontológicas etc. Em Minas, a programação vai desde Inhotim, ao Museu de Ciências Morfológicas no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG ao Muquifu – Museu de Quilombos e Favelas Urbanas no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte. “É uma instituição na vanguarda da linha de museus sociais, que não só preserva a memória de uma comunidade, mas a reconstrói e resgata sua identidade para que seus moradores possam se autoconhecer, modificar e fazer valer seus direitos”, comenta Oswaldo sobre esse último .

Para ele, o papel apaixonado e obsessivo do colecionador é muito importante ao conferir significado ao acervo cultural. Oswaldo acredita que não é obrigatório que toda coleção seja disposta em um museu, mas é importante que, mesmo “não-conectada”, ela mantenha um contato com a memória do patrimônio cultural.

“Vivemos a era das conexões. Todo mundo interage, e é fundamental incentivar a conexão entre uma coleção e, se não com o público, com outra que está mais próxima, pois é assim que se compartilha a energia cultural que ela produz”, filosofa.

São questões como essa que ele pretende discutir no debate nesta terça, às 19h30, no Museu de Artes e Ofícios. Com ele, vai estar a presidente do Instituto Cultural Flávio Gutierrez, Angela Gutierrez, cuja coleção deu origem ao próprio MAO, além do Museu do Oratório, em Ouro Preto, e o Museu de Santana, que será aberto em Tiradentes. “O bom da Semana é isso: poder discutir o que é museu, por que existe o Ibram, o Estatuto e o Sistema Brasileiro de Museus. É mostrar que museu não é um depósito estático de peças, mas uma instituição dinâmica e em transformação”, avalia Oswaldo.

Programação

4.268 eventos estão previstos durante a Semana nos 1.337 museus inscritos em todo o Brasil

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