História parcial de um violeiro jovem

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Nascido na segunda metade dos anos 1970, Fabrício Conde tem 38 anos. Natural de Juiz de Fora, a cidade essencialmente urbana da Zona da Mata mineira, e desde pequeno interessado em música, poderia ter crescido e cercado sua vocação por influências sonoras naturais a um adolescente dos anos 90, muito rock ou pop ou música eletrônica. Mas trilhou um caminho distinto e se tornou um especialista em viola caipira. Já gravou três discos solo, prepara um quarto, lançou livros e vem acumulando prêmios. A viola caipira que Fabrício toca não é aquela apenas arraigada à tradição do gênero, e seu interesse tem se expandido a outros instrumentos correlatos, como a viola de cabaça e o cuatro venezuelano, fruto de seus estudos em torno da música rural latino-americana. Processando suas buscas, Conde vem desenvolvendo um estilo próprio para o qual ele mesmo não tem uma definição, mas, se ela for necessária, eu diria que é uma música que tem a ruralidade em sua essência, mas revigorada de uma forma contemporânea. Conheci essa música durante a participação de Fabrício Conde no recente Prêmio BDMG Instrumental em Belo Horizonte e pude perceber o impacto positivo dessa sonoridade entre os que assistiam à apresentação. Com a curiosidade do jornalista, quis depois saber detalhes dessa arte incomum, pistas que Fabrício me deu em conversa telefônica de Juiz de Fora. Ele contou que, embora tenha nascido na cidade, é uma tradição em sua família o gosto pela vida na roça. Em parte de sua infância ele foi criado pela avó em um sítio em que ela tocava uma lavoura de café. A música também sempre foi uma área de seu interesse e, mesmo sem didática, passou a integrar grupos de bailes até não ver mais sentido naquilo. Conheceu Antônio Macário, um músico de rua que fazia ponto no calçadão da rua Halfeld, no centro de Juiz de Fora, o que despertou Fabrício para outro rumo. “Criamos uma grande amizade que durou 15 anos, pois ele morreu em 2012. Nesse período de convivência ele participou de CDs meus, do DVD que gravei, e minha admiração veio não só da música que ele tocava, mas da postura dele como violeiro, da mesma forma que os trabalhadores rurais, uma conduta natural do sertanejo. Por conta disso, surgiu uma afinidade que foi decisiva para minha vida”. Fabrício levou seu aprendizado musical para esse universo que o remetia à infância e nele se desenvolveu. O momento coincidiu com a aquisição de um sítio próprio em que pôde aprofundar seus estudos e ao mesmo tempo resgatar a memória familiar. “Nesse percurso eu também ouvi muita coisa, assimilei influências e acho que depois de oito anos passei a trilhar um estilo próprio. Me convidaram para fazer uma apresentação no Festival de Música Colonial e Antiga de Juiz de Fora, e, com a boa receptividade, meu trabalho foi tomando outra proporção”, explica o moço. É daí que vieram as incursões de Fabrício Conde em comunidade rurais do Brasil e também dos países vizinhos, começaram a sair os CDs, os convites para apresentações, livros e prêmios. “Não tenho formação acadêmica, meu estudo acontece mais é no contato direto com a tradição popular das músicas locais onde tenho oportunidade de conhecer as pessoas e a música, e percebo o que possa me afetar para construir meu próprio trabalho. Hoje até tenho me libertado da viola caipira, pelo aprendizado de outros instrumentos, como o cuatro venezuelano”. Fabrício conta que seu interesse por esse universo não é apenas musical, na riqueza rítmica, nas afinações diferentes, mas na essência de uma forma de vida que lhe agrada mais, em que o homem está mais ligado à sua natureza, e não contaminado pela sociedade urbana. Sobre a música que cria, ele afirma que não prega uma bandeira de resgate, nem vê essa necessidade. “Estou propondo o meu olhar e procurando deixar essa música viva”. Uma amostra desse trabalho está em http://fabricioconde.tnb.art.br/ .

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