Das nuvens ao pó

iG Minas Gerais |

Fiquem atentos àqueles indivíduos momentaneamente afortunados que ocupam os lugares mais poderosos do Estado considerando-os eternos. Os caprichos do destino são infinitos, espreitam os voos dos Píndaros. O calor do sol já derreteu inapelavelmente a cera das asas de Ícaro, mesmo quando usava avião a jato. Nunca fez mal a humildade verdadeira, não a humildade de fachada que um bom ator pode interpretar e costuma interpretar quando precisa de votos, apoios e favores. Nas alturas do poder, qualquer pedra que se desprende da encosta pode gerar uma avalanche, uma hecatombe de fiéis seguidores. Cada passo tem que ser firme e cuidadoso em razão não só da meta, mas da forma que se pretende alcançá-la. O custo pode ficar alto demais. Napoleão Bonaparte, dono da Europa inteira, morreu em Santa Helena, pobre, sozinho e envenenado. Adolf Hitler, outro dominador de meio mundo, se suicidou num bunker em Berlim. Benito Mussolini, Júlio César, Getúlio Vargas e muitos outros tiveram em comum sucessos fantásticos e fins trágicos. Erros de avaliação? Crença em que as vitórias pudessem se reproduzir ao infinito? Confiança excessiva? Distanciamento da realidade? Feitiço de poder? Claro que o epílogo trágico passou por um descuido. Frequentemente por grave descuido, em outros por um banal descuido ou por uma empáfia que se apoderou da razão. O genial Maurice Leblanc coloca nos lábios de sua criatura literária, Arséne Lupin – o mais atraente, o mais habilidoso, o mais elegante, o mais astuto de todos os ladrões já concebidos –, a confissão no auge do sucesso: “Em certos instantes, a minha força me faz girar a cabeça. Fico ébrio de poder e autoridade”. Ficar arrebatado pelo enlevo, de certa forma, é o “risco” maior que segue como sombra as pessoas que alcançaram grande poder em curtas temporadas e não conseguiram consolidá-lo nas circunstâncias menos favoráveis. Faz lembrar aquele vento que atingiu de surpresa o ocupante da torre de marfim e o fez cair das nuvens para o pó mais indigesto da terra. Tem gente que considera que ficará eternamente de um lado do balcão.

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