Marcas que nunca se apagarão

Quarenta anos após serem torturados, ‘subversivos’ mineiros vivem o trauma dia após dia

iG Minas Gerais | Lucas Pavanelli |

História. Colégio Militar foi um dos pontos de tortura utilizados durante a ditadura militar no Brasil
GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
História. Colégio Militar foi um dos pontos de tortura utilizados durante a ditadura militar no Brasil

Clodesmidt Riani, deputado e líder sindical, ouvia, do outro lado da parede, os companheiros urrando de dor e retornando à cela com os rostos ensanguentados. Mentiu para a família ao dizer que a prisão parecia uma colônia de férias só para que não soubessem os horrores que ele e seus companheiros passavam ali dentro.

Aldeysio Duarte, engenheiro, foi preso pela primeira vez por distribuir convites de seu casamento. Ficou algumas horas na delegacia, antes de ser liberado. Da segunda vez, dedurado por um militante, levou choques elétricos e foi espancado. As dores e marcas no nariz, ombros, joelhos, coração e no cérebro permanecem até hoje, quatro décadas depois. Durante a ditadura militar (1964-1985), o Estado utilizou estruturas oficiais e clandestinas para torturar e matar. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, em Minas Gerais foram ao menos três centros clandestinos – casas e sítios – e uma unidade do Exército (o 12º Regimento de Infantaria, no Barro Preto) onde opositores do regime conheceram as agruras da tortura. Havia outros locais, como o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), na avenida Afonso Pena e até o Colégio Militar. Foi justamente no centro de ensino que Aldeysio Duarte, hoje com 72 anos, sofreu agressões físicas e psicológicas. As marcas do dia em que um oficial lhe disse que torturaria seu filho de nove meses persistem mesmo com o passar dos anos. “Fui preso, cinco patrulhas vieram me buscar, e torturado. Fiquei com problema no cérebro, tenho convulsões até hoje. Levei choques elétricos. Quando eu saí, fiquei três anos em prisão domiciliar. Dava aula e voltava pra casa, um policial ficava na minha casa me monitorando”, relembra. JOGAR NO MAR. Clodesmidt, dirigente máximo do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), forte organização intersindical e deputado estadual em 1964, foi cassado uma semana após o golpe. Ouviu de um oficial do Exército que iria ser mandado a São Paulo “porque lá eles te jogam no mar e ninguém nunca vai ficar sabendo”. “Poderia ter ido ao exterior, mas resolvi ficar. Eu fiz tudo correto. Aí, me apresentei ao Exército, e eles fizeram o que fizeram”, diz o ex-sindicalista que foi recebido com socos e chutes na 4ª Região Militar de Juiz de Fora, cidade na Zona da Mata onde vive até hoje, aos 93 anos. Figura próxima ao ex-presidente João Goulart – quem levou por quatro vezes ao município de Juiz de Fora –, Clodesmidt se recusou a assinar uma carta redigida pelos militares na qual afirmava que Jango e o ex-governador do Rio Leonel Brizola eram comunistas. Não achava que eles eram. Da cidade, ele foi transferido para o 12° RI, em Belo Horizonte, onde a tortura continuou. 

Parlamentar Destino. Depois de deixar a prisão, o sindicalista Clodesmidt Riani foi eleito deputado estadual novamente em 1982. Já Aldeysio Duarte largou a militância política um ano antes. 

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