Longe de problemas vizinhos

Para embaixador, neutralidade do Brasil na crise do país se deve a interesses comerciais

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Dilma e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro: sem envolvimento
Eraldo Peres /ap/ 9.5.2014
Dilma e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro: sem envolvimento

Na Venezuela, o cenário é de instabilidade, sem possibilidades de prever quando o clima se tornará mais favorável. Nos últimos meses, foram registrados diversos protestos com dezenas de mortos. A situação é vista como negativa para 80% dos venezuelanos. Mais da metade dos cidadãos também reprovam o governo do presidente Nicolás Maduro, segundo pesquisa do Instituto Datanálisis.  

Em meio a esse cenário, o Brasil mantém uma posição de não envolvimento sobre a situação do país vizinho. Se para alguns especialistas a atitude é vista como positiva, pois esbarra na questão econômica, para outros, o país corre o risco de se tornar irrelevante.

O embaixador e membro do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) Marcos Azambuja, acredita que o Brasil não age errado em não se pronunciar de forma clara sobre a crise na Venezuela.

“Terminado o período de carisma do Chávez, agora, estamos diante da liderança do Maduro que não tem essas mesmas qualidades e características. Interesses comerciais, grandes investimentos, o saldo brasileiro no comércio bilateral levam o Brasil a ficar prudente e mais cuidadoso. A Venezuela vai mal e é de interesse do Brasil que o país encontre o melhor caminho. O Brasil não deve se meter nesse momento e o ideal é que fique em cima do muro”.

É o que também acredita o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Giorgio Romano. “O Brasil é o maior parceiro da Venezuela na América do Sul. Recentemente o governo foi firme na defesa da legalidade na Venezuela, articulando novamente o União de Nações Sul-Americanas (Unasul) para evitar um isolamento do governo Maduro. Para o bom entendedor, as ações brasileiras são uma clara defesa da legalidade do atual governo”.

Azambuja acredita que o Brasil tem pouco a perder agindo com prudência e distanciamento em relação ao país vizinho. “Com uma situação interna melhor, a Venezuela mais tarde será uma boa aquisição para o Mercosul. O Brasil tem tais interesses com seus vizinhos que a ele convém ter uma atitude presente, atenta, mas de não muito envolvida”, avalia.

Falhas. A organização internacional Human Rights Watch pediu recentemente que o Brasil demonstre seu compromisso e ajude a frear a repressão na Venezuela.

Paulo Wrobel, do Centro de Estudos e Pesquisas Brics, considera o envolvimento brasileiro no caso da Venezuela “pífio”. “O Brasil tem pecado mais em se omitir exatamente na América do Sul. Um outro exemplo é o Mercosul que está morrendo. O país não está sendo um ator dinâmico, ativo, está faltando liderança. E a pior consequência que isso pode ter é a irrelevância, além de se afastar gradativamente, e isso já está acontecendo, dos países chaves, como Estados Unidos”, diz.

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