Brasil fica em cima do muro em conflitos internacionais

Especialistas avaliam postura pouco ousada do país como reflexo das crises internas atuais

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Posição.Postura neutra do Brasil diante dos conflitos na Rússia foi criticada por especialistas
Vadim Ghirda
Posição.Postura neutra do Brasil diante dos conflitos na Rússia foi criticada por especialistas

Em cima do muro. Essa parece ser a postura do Brasil diante dos conflitos entre nações internacionais, que vêm transformando as relações entre os envolvidos, como é caso de Ucrânia, Síria e Venezuela. Alguns especialistas consideram a postura neutra como um ponto positivo. Outros, porém, condenam tal atitude e afirmam que é uma forma de omissão.

Uma das atitudes de distanciamento apontadas como grave por especialistas foi o fato de o país ter abstido do voto na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a anexação russa da Crimeia (Ucrânia) em março deste ano. A interpretação é de que o objetivo do país foi de “não gerar constrangimento” entre os Brics – grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “O posicionamento brasileiro tem sido muito aquém do que pode e deveria fazer. Aparentemente a presidente Dilma não se interessa por temas da política externa. Por outro lado, o Itamaraty tem seguindo as diretrizes do Planalto, assumindo certas posições. Porém, ao tentar não se comprometer, muitas vezes o país perde relevância”, avalia Paulo Wrobel, do Centro de Estudos e Pesquisas Brics. Já para o embaixador Marcos Azambuja, “o Brasil teve um voto normal e correto para as circunstâncias”. O Brasil ambiciona a cadeira de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, e por isso, segundo especialistas, deveria se manifestar nas situações de risco à paz . O professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Giorgio Romano, acredita que não há nenhuma relação entre se abster e pleitear um assento no conselho da ONU. “A China tem um assento e se absteve também. Abstenção articulada com os demais países dos Brics é um posicionamento claro que foi compartilhado. Não havia necessidade de se posicionar de forma contrária, mas era importante se distanciar das políticas dos EUA e seus aliados”, diz. Azambuja analisa que o país não deve ficar refém dessa possibilidade que ele considera remota. “O Brasil tem qualificações para ser um país membro, mas a ampliação do conselho não é uma hipótese plausível e não acontecerá em um curto prazo. Para cada candidato (Alemanha, Japão, Índia e Brasil), há pelo menos três anticandidatos, que vão fazer tudo para impedir”, afirma. Vaticano. Mais recentemente, a ausência de representante brasileiro na canonização dos papas João II e João Paulo XXIII também foi questionada. Porém, Azambuja acredita que, no momento, o país deve se concentrar em “colocar a casa em ordem”. “O Brasil tem urgências domésticas, como um possível desabastecimento de eletricidade e um período de certa turbulência com protestos públicos. Não há espaço para viagens, e o país deve evitar se meter em trapalhadas”, observa. Para Wrobel, a agenda interna não deve interferir. “Se ficar em cima do muro, desagrada todo mundo. O país deve defender os interesses de maneira que possa contribuir para o desenvolvimento, a segurança e a boa imagem do Brasil”, diz. Para Romano, o Brasil deveria voltar a ocupar um papel de destaque nas negociações do clima. “A reunião deste ano em Lima, no Peru, e a 21ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas em Paris, em 2015, serão decisivas. O Brasil é um player importante para garantir o sucesso das negociações”, diz o professor, que vê uma gestão menos ousada do Itamaraty.

Conselho da ONU - O Brasil integra um comitê de cinco países para analisar a reforma do Conselho de Segurança. Serão feitas oito reuniões ao longo de 2014. - Formato: cinco assentos permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra) e outros dez rotativos, sem poder de veto. - Candidatos a membro permanente:  Brasil, Alemanha, Índia e Japão. 

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