Terapia cura ‘deprê’ após os 60

Aposentados que buscam ajuda de um analista encontram novo sentido de viver

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Ajuda. “Falar dos problemas em grupo favorece a identificação, pois, assim, a pessoa se sente ‘navegando no mesmo barco de dificuldades’”, diz a psicóloga Maria Genoveva
douglas magno
Ajuda. “Falar dos problemas em grupo favorece a identificação, pois, assim, a pessoa se sente ‘navegando no mesmo barco de dificuldades’”, diz a psicóloga Maria Genoveva

Sentir que não tem mais propósito na vida, não saber o que fazer com o próprio tempo, lidar com as frustrações dos sonhos não realizados e o medo da morte são questões comuns para quem já passou dos 60 anos. Mas essas pessoas não precisam conviver com tais angústias e até os mais experientes podem se beneficiar com alguma ajuda. Para trabalhar essas questões e redescobrir o sentido da vida na maturidade, a terapia pode ser um escudeiro fiel.  

“Esses medos são normais. O grande enigma da vida continua sendo a morte. Quanto mais a pessoa vai se aproximando cronologicamente dessa possibilidade, mais pânico ela vai sentindo”, observa o psicólogo José Maurício da Silva, doutorando em psicanálise cuja tese propõe uma abordagem psicanalítica para a “envelhecência”. “(A terapia) vai ajudar na elaboração dos projetos não realizados, trabalhar as perdas e traçar novos caminhos para esse idoso”, afirma.

Confiando nisso, a professora aposentada Maria do Carmo Arreguy Corrêa, 83, procurou a ajuda do analista em 2005, depois da perda do marido. “Fiquei muito sem horizonte. Não tinha mais marido, já não era mais uma mãe presente porque meus filhos estão todos casados, não tinha mais nenhum aluno para cuidar. De repente, eu não tinha mais uma função na vida. Olhava para as paredes e perguntava: ‘Meu Deus, o que eu estou fazendo?’”.

O momento de desamparo foi, para Maria do Carmo, também o da virada. Diante do vazio, ela decidiu retomar o controle da própria vida. “Já conhecia o José Maurício e fui bater um papo. Fiquei lá uns cinco anos”, conta.

O resultado do processo de análise foi surpreendente até para ela. “Fui me descobrindo, e descobri não só caminhos para mim, como quem eu era realmente. Eu cuidei muito dos meus filhos, dos meus alunos, sou amiga de muitos até hoje. Foi na terapia que descobri que isso era o mais importante na minha vida”, revela.

Preconceito. Apesar de os casos vitoriosos, como o de Maria do Carmo, serem vários, o preconceito contra a terapia ainda é uma barreira para uma grande parte da população acima dos 60. “Muitos acham que psicanálise é coisa para doidos. É uma concepção que está disseminada e está na cabeça deles”, reconhece Silva.

A melhor forma de ultrapassar esse obstáculo é dar uma chance para o processo. “Quem tem um idoso em casa e gostaria de levá-lo para a análise, pode tentar negociar uma ida ao analista para ele conhecer e ver se gosta. Com o início do trabalho, a pessoa que chega com esses preconceitos vai vendo que ela não está ficando doida e que é um processo de construção”, garante o psicólogo José Maurício da Silva.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave