Olhar didático para os livros infantis vira alvo de críticas

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Imagem do livro “Num Mundo Perfeito”, um dos cerca de 50 títulos produzidos por Leo Cunha
Salmo Dansa
Imagem do livro “Num Mundo Perfeito”, um dos cerca de 50 títulos produzidos por Leo Cunha

Incentivar a leitura pode não ser uma tarefa das mais fáceis hoje em dia quando os livros disputam atenção com uma miríade de outros produtos ancorados nas mais diversas tecnologias. Mas, além das influências do atual contexto, para a professora, pesquisadora e ex-livreira Maria das Graças Monteiro Castro, não colabora também o modo como os títulos infantis são produzidos e forçados a entrar nas escolas.  

“Existe uma confusão muito grande, que deve muito à própria dinâmica do mercado. Se hoje, em relação há 15 anos, a produção de livros infantis dobrou, isso não se pode dizer em relação à qualidade. Os títulos que chegam, por exemplo, às escolas, trazem textos que passaram por um processo de didatização, ou seja, são moldados para que sejam aceitos nesses espaços”, observa Maria das Graças, que é também jurada da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e recebe em média 900 obras infantis por ano para avaliação.

Paradidáticos. Ela frisa que ao abarcar a função de ter de tratar de temas específicos, essas criações deixam de ser literatura e se aproximam mais do segmento dos produtos paradidáticos. “A literatura não tem que atender a nenhuma necessidade externa. Quem cumpre esse papel são os livros informativos. Sou contra a terminologia que atribui a essas obras o valor de paradidáticas. O paradidático é o que deve ser utilizado em paralelo com o didático. Literatura, mais uma vez, não é isso”, diz Maria das Graças.

A falta de preparo dos professores, muitas vezes, não leitores, de acordo com ela, contribui para a deficiência no filtro do material levado às crianças. “Nós temos uma produção imensa, com obras que não deixam a desejar em nada em relação ao que encontramos no exterior, como, por exemplo, o trabalho genial de Roger Mello. Ao mesmo tempo, me parece que o mercado cada vez mais determina o que vai ser consumido nas escolas porque os professores também não conseguem eles mesmos proporem o que deveria ser ali incorporado”, observa.

Crítica ao uso didático do livro infantil, a ilustradora e escritora Ana Raquel diz ter criado inclusive uma página no Facebook, “Faça um adulto feliz, dê a ele um livro ilustrado”, no intuito de combater a visão de que esse segmento é menor em relação aos outros.

“Eu defendo a ideia de que se o adulto curtir a literatura nomeada infantil, ele, além de ficar mais feliz, vai saber falar melhor com a criança. Eu noto que, às vezes, os professores não leem livro infantil e isso impede que eles consigam pensar em abordagens que não sejam aquelas que resumem o livro a uma tarefa de escola”, diz Ana Raquel.

Já Renata Bueno questiona a dificuldade de buscar outras possibilidades de se lidar com o livro nas escolas, onde muitas vezes se recorre ao recurso fácil da leitura seguida da visita do autor. “Essa prática das escolas solicitarem a presença de autores quando os livros são adotados precisa ser revista. Claro que é importante haver esse momento de interação com o escritor, mas acho que a criança não precisa conhecer o adulto criador para gostar do livro. O objeto pode ter vida própria e se desdobrar em outras coisas. Haverá momentos em que um autor não vai estar mais vivo, mas sua obra sim”, conclui Bueno. 

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