Orixás invadem narrativa pop

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

PJ Pereira - Publicitário e escritor
Leo Neves
PJ Pereira - Publicitário e escritor

Residente em São Francisco, nos EUA, o carioca comenta sobre o segundo volume da trilogia “Deuses de Dois Mundos”, que tem feito sucesso e já teve seus direitos adquiridos para quadrinhos, filme e série de televisão. Na entrevista a seguir, ele detalha algumas das próximas cenas em que o jornalista Newton Fernandes lida com Orixás e missões colocadas para ele.

Em “Deuses de Dois Mundos – O Livro da Traição”, segundo volume da saga que estreou no ano passado, o personagem Newton Fernandes avança na aventura iniciada com “O Livro do Silêncio”. A história, como apresentada no título de estreia, se passa em 2001, e traz semelhanças narrativas com outras produções, como a trilogia “Matrix”. Como você percebe a presença de referências da cultura pop mescladas com a mitologia dos orixás retratada nesses livros?

De fato, quando comecei a escrever essa história, “Matrix” estava no auge e até hoje é um dos meus filmes preferidos. O protagonista de “Deuses de Dois Mundos” é uma referência direta ao Neo, personagem daquela trilogia. A ideia de Newton conversar por e-mail com Laroiê, uma figura misteriosa que pode ser representação moderna de uma entidade de matriz africana, é inspirado nesse universo. Laroiê é alguém que sabe porque New está envolvido naquela trama e o protagonista se dirige a ele como quem faz um pedido de ajuda. Em troca de algumas dicas, ele pede que New compartilhe suas experiências gastronômicas e suas conquistas. Aos poucos, nesta continuação passa a saber quem é Laroiê. Os dois se aproximam quando New posta uma carta na internet e Laroiê responde. Há toda uma atmosfera enigmática que aos poucos é descortinada nesse segundo volume. “Deuses de Dois Mundos” foi escrito por você em 2001. O que o motivou naquela época a conceber uma história de fantasia que envolve tecnologia, aventura e religião?

Acho que tudo isso partiu de uma vontade de mostrar como as pessoas que têm algum preconceito contra a cultura de origem africana, como a iorubá, agem de maneira injusta. Minha ideia foi permitir que elas tivessem a oportunidade de conhecer melhor esse universo. Dessa forma, elas poderiam diminuir o receio contra algo que ignoram. Logo que comecei a estudar a mitologia dos Orixás, me apaixonei pelo tema. Daí em diante, escrevi o livro que em 2002, quando tentei publicar, não atraiu muito interesse. Eu ouvi que a história provocava uma leitura difícil e que só quem gosta ou é familiarizado com essas religiões entenderia. Isso não é verdade. “Deuses de Dois Mundos” é um livro, sobretudo, do gênero fantasia. Atualmente você está escrevendo o terceiro volume dessa trilogia. O personagem aos poucos toma as rédeas dessa história ou ele continua sendo levado pelos acontecimentos?

New é um jornalista super ambicioso, mas ele não entra nessa trama apenas porque quer. Ele é convocado a desvendar um mistério e não acredita na interferência de entidades de outro mundo no seu caminho. Ele não gosta muito dessa ideia e não quer participar de nenhuma missão que o retire de sua rotina. É justamente isso que vemos no primeiro livro. É no segundo volume que temos uma virada. Embora ele tenha resistido no início, depois começa a tentar ajudar os seres energéticos, no caso os próprios Orixás, que o provocaram a entrar nesse cenário. O último livro vai apresentar os desdobramentos de tudo isso. Em algum momento muda a tarefa que é dada a ele?

Acho que a visão do que precisa ser feito é que vai ficando mais nítida. Por exemplo, a fase mais recente da narrativa reflete a crença para os povos de origem iorubá de que a história é feita de ciclos. Tudo que acontece na vida é uma repetição. Partindo desse ponto de vista, eu montei um universo em que várias ações acontecem em paralelo. Enquanto acompanhamos algo que é relatado por New, em outro espaço, um grupo de feiticeiras sequestra e rouba os deuses do destino. Ao fazerem isso, os homens da Terra ficam confusos porque deixam de ter quem consultar. Imagina que o jogo de búzios para aquelas pessoas, em certo sentido, funciona como a internet hoje para a gente. Naquela época ancestral, eram os deuses que informavam, por meio do jogo de búzios, o que os homens queriam saber. Quando esse mecanismo deixa de funcionar, se instaura o caos no mundo. New entra nessa confusão toda quando outros deuses procuram substitutos para aqueles que foram sequestrados. Mais uma vez a referência à “Matrix” parece clara, uma vez que o personagem assume o papel de alguém que pode trazer a solução para um conflito.

De certa forma sim, mas diferentemente de “Matriz”, aqui o protagonista é apenas um entre outros 16 substitutos escolhidos. Ele tem um papel específico, mas isso não fica claro até esse segundo volume. Juntos, todos os 16 funcionam como uma espécie de conselho antes ocupado pelos deuses do destino. Quando o livro saiu, muitos leitores disseram que a história era uma mistura de referências de “Matrix” com “O Senhor dos Anéis”, mas com uma influência de uma repertório que não é europeu, já que toda a mitologia é de origem africana. Ao seu ver, essa ideia de dimensões que correm em paralelo aparece representada também na maneira como constrói o texto?

Se você observar, os capítulos são alternados. Em um, por exemplo, New envia uma carta para Laroiê, mas ao invés de lermos a resposta nas páginas seguintes, o leitor é transportado para outro lugar que remonta a essa África mitológica. Até o final há essa alternância de cenas. Por meio de algumas pistas, as pessoas vão percebendo como as duas histórias se conectam. No “Livro da Traição”, os orixás aparecem como personagens com atribuições bastante humanas. É conhecido o modo como na mitologia da qual fazem parte eles já possuem essa característica. Isso o ajudou a trazer esse seres para a história?

Uma das vantagens de trabalhar com essa mitologia é que ela é muito rica. Então, eu encontrei muita base para saber como eles se comportam, ou seja, uma quantidade de situações suficientes para eu desenvolver a minha narrativa. O que não havia de maneira tão clara, eu me permiti preencher essas lacunas com a minha própria imaginação. Contudo, eu não quis alterar demais as características de cada um deles, porque eles já são espetaculares e, de fato, muito humanos. Eles têm qualidades e defeitos, uma energia e sentimentos muito fortes, o que, às vezes, leva a algumas atitudes muito radicais. Você conta que em 2002 não conseguiu publicar esse livro, mas a partir de 2013 sim. Por que imagina que ele só conseguiu sair agora?

Eu acho que é mais um desses casos em que percebemos ter chegado a hora certa. Há 11 anos atrás não deu certo e eu achava que era porque eu era um desconhecido. Depois, eu construí uma carreira e um nome no campo da publicidade antes de me lançar como escritor. Eu imaginava que isso tivesse sido o elemento necessário para dar mais credibilidade ao trabalho. Porém, quando fui lançar meu livro, saiu quase na mesma época outro, “A Saga de Orum”, o que me deixou um pouco confuso. Deve ser mesmo alguma coisa do momento. Os leitores têm dado respostas ótimos, tanto aqueles que conhecem esse universo quanto aqueles que têm contato com essa mitologia pela primeira vez.

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