As surpresas de Kafka no dia de sua morte - parte 1

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Não fossem Max Brod e alguns judeus americanos, a obra de Kafka estaria comemorando 90 anos de inexistência
Intervenção sobre foto do fantasma de Kafka
Não fossem Max Brod e alguns judeus americanos, a obra de Kafka estaria comemorando 90 anos de inexistência

Três de junho de 1924, nove horas da manhã. Sanatório Hoffmann em Kierling, pequena cidade austríaca. Recém-aposentado por invalidez (tuberculose na laringe), Franz Kafka está tomando sol no jardim, grosso cachecol azul enrolado no pescoço. Rastejando, aproxima-se um bicho estranho, de pelo amarronzado e nariz comprido, que resmunga entredentes: – Você, K., bem que poderia ter me deixado morrer em paz na minha toca. Em vez disso, me pôs a divagar infinitamente sobre as vantagens e desvantagens de meu esconderijo, como se eu fosse a insegurança em pessoa. – Desculpe, meu caro. Você foi apenas, digamos, um alter ego, se posso chamar de alter ego a bicho tão esquisito. No fundo, não quis escrever na primeira pessoa, já que seria como me trancar num quarto e ficar questionando se estava seguro lá dentro. O AGRIMENSOR Nesse momento, abriu o portão um sujeito magro, de idade indefinida, que avançou lentamente em direção à dupla. – Desculpe, patrão, mas nem depois de 400 páginas consegui entrar no castelo. Que diabo de feitiço tem aquela aldeia? Ninguém sabe nada, o castelo é inacessível, nem ao menos consegui falar com meus empregadores. Devo voltar pra lá? – Não, não é preciso – apressou-se Kafka a dizer. – Você era apenas outro alter ego meu, tentando mostrar ao mundo o desconforto em que vivo. – Mas precisava me usar durante um livro inteiro, quando eu poderia exercer minha profissão tranquilamente noutra aldeia qualquer? – Sim, eu sei. Mas é que eu precisava de um agrimensor como personagem. Se não fosse você, seria outro igual a você, que também estaria aqui reclamando. O ARTISTA DA FOME – Conversa fiada – gritou um cara esquelético que apareceu de repente no meio das árvores. – Vejam meu caso. Esse cara me colocou pra trabalhar no circo, trancado numa jaula fedorenta, dormindo num monte de palha imunda e jejuando dia e noite até morrer de fome! Parece incrível, mas é a pura verdade. É um canalha! – Calma, calma, minha gente – murmurou Kafka com voz abafada, já que a laringe doía muito e tinha dificuldade em falar. – Como poderia narrar meu desconforto diante da vida senão através de, digamos, parábolas? Você vai concordar comigo que sua tirada final é finíssima: de que só jejuava por nunca ter encontrado alimento que lhe agradasse. O INSETO GIGANTE – Papo furado! – rebateu uma espécie de barata enorme, deitada de costas e sacudindo as perninhas desordenadamente. – Covardia dele, é o que é. Todos, Kafka inclusive, ficaram olhando o baratão mexer as perninhas ridículas, como se pedalasse uma bicicleta com as rodas para cima. O primeiro a rir foi o agrimensor. Ria baixinho, com a mão na boca, até que os outros também começaram a rir, a rir alto, cada vez mais alto, até que todos estavam quase sufocados de tanto rir. Furioso, o baratão deu uma cambalhota e firmou-se nas múltiplas patas: – Calem a boca, vocês todos, criaturas e criador. Estão pensando que sou palhaço? Só porque certa manhã, eu, um cidadão exemplar, amanheci assim, sem poder sair da cama? Acham graça, é? E vocês, o que são? Puro delírio desse tuberculoso aí. FILOSOFA UM CÃO De dentro do sanatório saiu um cachorro grande e peludo, que foi logo dizendo, sem a menor cerimônia e com vozeirão de baixo: – K. está certo, e não estou puxando o saco dele. Como mostrar que tudo o que acontece e tudo o que nos cerca é desprovido de sentido, senão através de alegorias? Vejam meu caso: existe coisa mais idiota do que abanar o rabo? Pela primeira vez, Kafka sentiu-se confortável, e olhou o cão carinhosamente. – Obrigado meu caro. Enfim, um personagem me entende. – Não me agradeça – respondeu o cachorro. – Estou apenas filosofando, já que fui criado para filosofar. Para ser sincero, nem ao menos entendo o que acabo de dizer. KAFKA SE DEFENDE – Não fiz por mal, juro, disse Franz com sua voz rouca. – Mas é que eu precisava de vocês pra me representar. Como alegoria, entendem? Nada de pessoal, apenas não podia dizer que era eu que estava ali. No fundo, eu queria mesmo é escrever da forma mais obscura possível, de modo que cada um entendesse do seu jeito, inclusive vocês. Entreolharam-se o bicho esquisito, o agrimensor, o jejuador e o cachorro, na dúvida se deviam ou não acreditar naquele doente. No que se entreolhavam, apareceu do nada o crítico Otto Maria Carpeaux, que conhecera Kafka numa festinha de intelectuais. – Bom-dia, meu amigo. Como está se sentindo? Sabe que, dentro de poucos anos, escreverei no Brazil o primeiro ensaio sobre você? Ficaram todos espantados. Quer dizer que no futuro seriam famosos até no Brazil, aquele país de índios e negros? O AUTÓGRAFO – Hoje – continuou Carpeaux – vim pedir um favor e contar uma história. Claro que você não sabe, mas fiz alguns trabalhos para a editora Die Brücke, que publicou, a pedido do escritor Max Brod, seu romance “O Processo”. Como me deviam 130 marcos, um bom dinheiro, fui lá cobrar. Vi, num canto, uma pilha de seus livros. Peguei um e comecei a ler distraidamente, quando o diretor apareceu dizendo que, infelizmente, não podia me pagar. Mas que eu poderia levar aquele exemplar ou até a edição inteira, que estava encalhada. Carpeaux balançou tristemente a cabeça e acrescentou: – Fiquei apenas com este exemplar, e foi a maior burrada da minha vida. Sabe que dentro de mais alguns anos cada um deles valerá muito? Autografe aqui, por favor.

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