A Marina Viana grita

No FIT-BH com “Isso É para a Dor” e “Pereiras”, atriz mineira mostra lados antagônicos: o dramático e o performático

iG Minas Gerais | luciana romagnolli |

“Isso É para a Dor”. Montagem entra em cartaz no festival nos dias 14 e 15, no Teatro Bradesco
Luiz Matoso/divulgação
“Isso É para a Dor”. Montagem entra em cartaz no festival nos dias 14 e 15, no Teatro Bradesco

Quem já viu escapar entre os lábios de Marina Viana um palavrório desgovernado, repleto de associações à cultura pop, com a qualidade poética e sonora de um refrão de rock, e conhece a personalidade forte que emerge em qualquer lugar que a atriz transforme em palco, deve ter visto com surpresa seus dois espetáculos mais recentes.

 

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    “A dama indigna das Alterosas” desbancou qualquer suposição de que só saberia ser aquela potência verborrágica em cena. Essa força, ela só libera novamente agora, ao reapresentar “Pereiras = Festival de Ideias Brutas ep. 1 + Açougue dos Pereiras”, pelo 12º FIT-BH a partir de amanhã, ao lado de Rodrigo Fidelis. “Eu construí um trabalho muito performático e fui cobrada por isso. Acabei batendo o pé de que era o que eu queria fazer, até porque minha atuação está pautada no que eu quero dizer. E acaba que a Marina grita mesmo”, diz, sentada sobre um colchão no chão do espaço 171, a dois quarteirões do Cine Horto.

    O primeiro “susto” veio em março, quando a Primeira Campainha estreou “Isso É para a Dor”, escrito e dirigido por Byron O’Neil. Os cabelos descoloridos e rebeldes ficaram pretos e deram vez a um corte Chanel: a beleza clássica no lugar da punk-hippie. Como pode se ver na temporada do espetáculo pelo FIT-BH, a partir de quarta, Marina representa Benjamin, uma personagem de modos contidos, muito distintos dos seus próprios, refugiada em um cotidiano absurdo de privação, ao lado das atrizes Marina Arthuzzi e Mariana Blanco.

    “O Byron me colocou num lugar que há muito tempo eu não vivenciava. Ele é um menino mais clássico. A gente experimentou mil coisas, mas, pela maneira como escreve, a gente já tende a construir a coisa de uma maneira diferente. E foi difícil, eu queria inventar moda. Tentei bater o pé um pouco, mas fui levada. No fim, foi muito importante”.

    Em abril, a surpresa foi maior – ao menos para o público. Coube a ela o papel da jovem Karen em “Sarabanda”, originalmente vivido com languidez sueca por Julia Dufvenius no filme de Ingmar Bergman. Sem preocupar-se em repetir modelos, Marina deu outra dimensão ao drama entre pai e filha.

    Aos 32 anos (ontem tornados 33), a atriz precisava fazer uma garota de 20, em momento de decisões drásticas. “Tinha que contracenar com a Rita (Clemente), que é uma atriz foda da cidade, e isso me dava material suficiente para pensar a Karen no ensaio. Ter passado pelo Byron me abriu para escutar e ser um pouco mais guiada”, conta.

    Essência. Por um tempo, ela tentou passar de “atriz que escreve” a dramaturga (coisa que já é, independente do rótulo que se dê). Hoje, já se satisfaz: “Acho que sou essencialmente atriz”. Está aberta a assumir outras personagens no futuro, numa chave de atuação mais dramática. “Mas não vou deixar de fazer as coisas como eu tenho feito”, contrapõe.

    É aí que entra “Pereiras”, com Marina na versão que “grita”. Ela recuperou textos antigos do seu blog Sandía el Perfume e trechos que sobraram de outros espetáculos para transformar em uma série de solos a serem dirigidos por diferentes convidados: o “Festival de Ideias Brutas”. O primeiro episódio teve direção de Fidelis, amigo de longo data.

    Um tempo antes, Fidelis havia apresentado a cena curta “Açougue dos Pereiras” no Galpão Cine Horto. Os dois, que não trabalhavam juntos desde “Máquina de Pinball”, uniram as ideias e os sobrenomes em desuso na vida artística: Rodrigo Fidelis Pereira e Marina Viana Pereira. O resultado é a dupla interferência criativa, com forte identificação afetiva e artística.

    Postura. Marina não lembra se alguma vez já escreveu de outra maneira. Seus textos, mesmo os rapidamente esboçados, têm uma dicção muito particular. Esse lado performático foi influenciado por Sara Rojo na época da faculdade de teatro, cursada simultaneamente à de História. “Fui um fracasso na academia porque já performatizava com nota de rodapé, citação”. No teatro, a postura performática prevaleceu. “A hierarquia do teatrão nunca me pegou muito”.

    Musa da plagiocombinação; fã de Tom Zé, Caetano Veloso e Angela Rorô, pelo lado “deprê debochado”; um pouco Almodóvar e um pouco Tarantino, com quem compartilha a formação por TV e filmes B; espectadora de “Armação Ilimitada”, “TV Pirata” e programas de auditório; eterna crítica de Xuxa, por quem foi marcada na infância; impactada pelo “Ensaio.Hamet” da Cia. Dos Atores, Denise Stoklos e pelo teatro mineiro; Marina já foi criança de apartamento e adolescente hippie. Hoje, diz: “Eu vou rir de mim mesma o tempo todo. Posso debochar do mundo inteiro, mas começa por mim, não pelo outro, jamais”.

  • Para ver e ler
  • “Pereiras = Festival de Ideias Brutas Ep. 01 + Açougue dos Pereiras”. Com Marina Viana e Rodrigo Fidelis. Amanhã, às 20h, e terça (13), às 20h30, no Espaço Ambiente (rua Grão Pará, 185, Santa Efigênia), 3241-2020. R$ 20 e R$ 10 (meia).
  • “Isso É para a Dor”. Texto e direção de Byron O’Neil. Com a Primeira Campainha. Dias 14 e 15, às 21h, no Teatro Bradesco (rua da Bahia, 2.244), 3516-1360. R$ 20 e R$ 10 (meia).
  • 2015. A Primeira Campainha mais Dayane Lacerda e Denise Leal vão criar o próximo espetáculo do projeto Pé na Rua. Partem do texto “Desabafo sobre o Brasil República”, no qual Marina Viana compara personagens históricos a bebidas. “Chimarrão é Getúlio. Tem café, leite, vodka, coca-cola”, diz.
  • Blog: sandiaelperfumen.blogspot.com.br
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