Para as mães imperfeitas

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Todo mundo sabe ou já ouviu falar que cada vez que uma criança nasce, a mãe ganha de brinde um pacote de culpa, que vai alargando suas dimensões com os aniversários da cria. Invariavelmente, essa história de amor incondicional, que é muito verdade, inclui também uma auditoria permanente nas suas incapacidades, agravadas pelos manuais das revistas, pelas vizinhas irritantemente incríveis e, mais recentemente, pelo maravilhoso mundo das genitoras sem defeitos que se exibem nas redes sociais. Mas aí que uma vez por ano aparece um domingo para apaziguar toda a inadequação e adular as moças e nem tão moças que exercem a maternidade imperfeita, mas cheia de esforço e boa-vontade. Sou desse clube e, assim como sei que mereço, faço aqui uma lista de desejos para o dia 11 de maio: Um dia cheio de afagos para as que, mesmo sabendo do estrago, deixam o filhote pular pra sua cama de madrugada depois do sono interrompido por pesadelos e apesar de ele já ter passado dos 5, dos 10 ou dos 15 anos. Uma festa amorosa para as que sabem que precisam dar mais autonomia para os filhos, mas que entram em pânico só em pensar na possibilidade de acabar a luz bem no dia em que deixou o caçula pegar o elevador sozinho para ir na casa do vizinho. Um almoço farto e barulhento para as que leem os jornais todos os dias, sabem de cor os índices crescentes de violência, reconhece que o mundo não é mais o mesmo de cinco minutos atrás, mas ainda assim não vê problema de o pré-adolescente percorrer a pé e sem a companhia de um adulto os três quarteirões que dividem sua casa do colégio. Um abraço grande e gordo para as que desistiram na terceira pirraça e hoje olham com resignação a coisa mais fofa do planeta recusar todos os verdinhos do prato e se empanturrar com nugguets e batata sorriso. Todo o carinho do mundo para as que enlouquecem com a teimosia na hora de fazer o dever de casa, que têm uma síncope com cada média perdida, que perdem a cabeça depois de um telefonema da supervisora e que, para a sobrevivência da família, gastam o que não têm com aulas particulares. Uma surpresa das boas para as que, momentos depois de uma bronca corretiva, têm sempre um colo consolador para oferecer. Para as que não conseguem dizer não e preferem sofrer caladas a ter que dividir o perrengue com a filharada. Meia dúzia de mimos para as que já tiveram vontade de jogar a criança pela janela, que já sentiram uma raiva tão grande e avassaladora que a agressão até não pareceu uma coisa assim tão absurda, que já protagonizaram pelo menos duas dezenas de ataques de fúria. Uma homenagem linda para as que desejam em segredo um dia inteiro sem ninguém chamando “mãe”, que se ressentem com a falta de liberdade e que sonham com uma noite de porre enquanto assistem outras mulheres felizes desfilando na pracinha. Declarações de gratidão para as que nunca, jamais, em tempo algum pensaram em abdicar da carreira para criar a filharada e cuja a dor no coração no final da licença maternidade foi facilmente abatida pela vontade louca de voltar à labuta. Milhões de beijos naquelas que já foram acusadas de relaxadas, egoístas, exigentes ou complacentes demais. Meu reconhecimento às mães que fazem o impossível, mas que vão morrer achando que não fizeram o suficiente.

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