Vazios do homem como tratado da humanidade

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


“Ivanov”, de Antón Tchékhov, ganha versão de grupo cearense
Deivyson Teixeira
“Ivanov”, de Antón Tchékhov, ganha versão de grupo cearense

Em meio à maratona de espetáculos proposta pelo Festival Internacional de Teatro, acredite: há vida criativa fora do FIT, com algumas boas opções. Um delas é a vinda do Teatro Máquina, de Fortaleza, com o espetáculo “Ivanov”, que se apresenta gratuitamente no Galpão Cine Horto, de hoje a domingo.

“Tivemos um encontro com esse texto em 2010 e fomos nos apropriando dele, por meio de improvisações”, explica a diretora Fran Teixeira. “Ivanov” é uma obra de um dos mais importantes escritores da literatura russa, Antón Tchékhov.

A peça versa sobre o vazio de um homem que se encontra em situações limites em sua vida íntima e em seu trabalho. Exposto ao amor da esposa doente e à paixão fulminante da jovem Sasha, Ivanov, inerte e sem fé, se ocupa com descrições frias dos acontecimentos. Conversas vazias e diálogos sobrepostos criam o clima de não-comunicação e renúncia que deflagram a decadência da aristocracia rural e antecipam a atmosfera revolucionária russa da virada do século XIX.

O coletivo buscou sua teatralidade trabalhando uma linha narrativa muito forte. “É difícil cortar esse texto, porque ele é muito bonito. Temos revisitado o modo de fazer esse espetáculo e experimentado uma fusão mais intensa dos diálogos do primeiro ato, assumindo uma posição mais frontal, mais narrativa. Além disso, temos uma composição gestual mais imagética”, destaca Fran Teixeira.

O jovem Teatro Máquina, criado em 2008, recorreu a alguns parceiros em seu processo de criação do espetáculo, um deles foi o tradicional grupo paraibano Piolin, que recentemente também tem uma montagem de outro texto de Tchékhov, “A Gaivota”.

“Embora nossos trabalhos sejam bastante diferente, foi muito bom conviver com o pessoal do Piolin. Alguns aspectos que eles abordam em seu trabalho influenciam o nosso, como o uso de uma voz mais natural, menos teatral, mais íntima, em cena. E essa parceria nos levou a fazer temporada de nosso espetáculo em João Pessoa e trouxemos eles a Fortaleza também”, revela a diretora.

Ao montar um texto de um autor russo, a diretora garante que a distância geográfica e cultural existente entre cearenses da atualidade e russos do final do século XX não foi um problema. “Nunca olhamos o nosso trabalho por esse ângulo. Encaramos o texto como algo pleno de humanidade. Mas é claro que nós somos de um determinado lugar, como todo mundo. Tem uma coisa interessante, como o texto aborda um história que se passa no interior, em um ambiente rural, é possível pensar nos latifúndios que existem no sertão do Ceará, mesmo que Fortaleza não esteja tão próxima dessa realidade”, ressalta.

A peça, que estreou em 2011, faz uma carreira que lhe dá maturidade a cada nova temporada. “A oportunidade de fazer temporadas desse espetáculo nos dá a chance de revisitar nossa forma de fazê-lo. É interessante notar que os grupos de teatro gostam de dizer que têm seu repertório. Esse é um trabalho de nosso repertório e temos outro depois dele. Até por isso, cada nova vez que fazemos esse espetáculo, parece que é um recomeço. A peça não é a mesma e nós, certamente, também não somos os mesmos”, filosofa Fran.

Agenda

O quê. “Ivanov”

Quando. Hoje, às 20h; amanhã, às 19h e 21h; e domingo, às 19h

Onde. Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto)

Quanto. Entrada franca

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