Morre, aos 75, Jair Rodrigues

Cantor e compositor foi encontrado morto na sauna de sua casa em Cotia, no interior de São Paulo, na manhã de ontem

iG Minas Gerais | fabiano fonseca |

Alegria. Com seu jeito extrovertido e irreverente, Jair Rodrigues foi sinônimo de alegria e boa música
ccbb/divulgação
Alegria. Com seu jeito extrovertido e irreverente, Jair Rodrigues foi sinônimo de alegria e boa música

“Enquanto Deus não me leva, não paro mesmo!”. Foi com essas palavras que Jair Rodrigues justificava (e celebrava) toda a sua vontade em seguir cantando. Canto, rouco, de tom inconfundível e alegre, interrompido na manhã de ontem com a notícia de sua morte, aos 75 anos.

Jair Rodrigues morreu na manhã de ontem, vítima de enfarte do miocárdio, revelou seu assessor, Giuliano Spadari. Ele foi encontrado morto na sauna de sua casa, em Cotia (SP). De acordo com Spadari, Jair costumava fazer sauna pelas manhãs e, neste dia, os funcionários perceberam que ele demorava muito, foram verificar e ele estava caído no chão.

O corpo de Jair Rodrigues está sendo velado na Assembleia Legislativa de São Paulo. O enterro será hoje, às 11h, no Cemitério Gethsemani.

Entrevista. Em sua última entrevista ao Magazine, nod ia 20 de março. Jair esbanjava tudo aquilo que estávamos acostumados a ver e ouvir: alegria, simpatia e vitalidade. O descontraído bate papo era por ocasião do lançamento de “Samba Mesmo”, projeto em dois volumes nos quais o cantor interpreta clássicos da música popular brasileira – além de três canções inéditas – nunca gravadas por ele.

Por mais de 50 minutos, Jair também passeou pelos seus mais de 50 anos de trajetória musical, relembrando seu início em São Carlos, no interior paulista, a grande amizade com Elis Regina e, em especial, o momento festivo em família. “Tenho muito o que agradecer a Deus. Vivo em plena felicidade com a Clodine e ver o caminho que meus filhos vão seguindo traz uma imensa alegria. Tenho 75 anos e estou muito contente com o momento”, dizia o artista sobre a esposa, Clodine, com quem Jair compartilhou 40 anos de união, e os filhos Jairzinho e Luciana Mello.

Do lado de cá da linha, impossível não se contagiar com tamanha alegria. Cada resposta, cada palavra, vinha acompanhada de uma gargalhada (de entrevistador e entrevistado). Até mesmo para falar do que não gostava, Jair era pura irreverência. “Gosto muito de futebol e, quando jogo bola, não gosto de perder. Hoje, não tenho fôlego e fico na defesa. Aí a molecada quer passar a bola por baixo das pernas e tudo mais. Bom, a bola passa...”, disse às gargalhadas.

Vida e obra. Jair Rodrigues começou sua carreira como crooner nos anos 1950. Na década de 1960, fez sucesso na televisão como apresentador do programa “Fino da Bossa”, ao lado de Elis Regina. O cantor ainda ficou imortalizado como o intérprete da canção composta por Geraldo Vandré “Disparada”, que venceu o Festival da Canção de 1966, empatado com “A Banda”, de Chico Buarque.

Ele nasceu em 6 de fevereiro de 1939 em Igarapava (SP). Começou sua carreira no final dos anos 1950 como cantor em casas noturnas no interior do Estado. Na década seguinte, ele começa a se apresentar na capital paulista. Seu primeiro disco foi gravado em 1962, com duas músicas para a Copa do Mundo daquele ano: “Brasil Sensacional” e “Marechal da Vitória”. “Vou de Samba com Você” e “O Samba como Ele É”, seus dois primeiros LPs, foram gravados em 1964.

Foi nessa época que atingiu grande popularidade com a música “Deixa Isso pra Lá”, considerada uma das precursoras do rap brasileiro, com um refrão falado. Cantou pela primeira vez ao lado de sua parceira, Elis Regina, em 1965. A dupla gravou um disco ao vivo, “Dois na Bossa”, e comandou o programa de TV “O Fino da Bossa”.

Em 1966, disputou o 2º Festival de Música Popular Brasileira com a música “Disparada”, de Geraldo Vandré e Teo de Barros. Acabou em primeiro lugar, que foi dividido “A Banda” (canção de Chico Buarque), interpretada por Nara Leão.

A discografia de Jair Rodrigues inclui 44 trabalhos, segundo o site oficial do cantor. Os discos foram gravados entre 1964 e 2014. Neste ano, lançou os dois volumes do álbum “Samba Mesmo”, em que homenageia gêneros musicais como seresta e samba. 

Carreira

1957. Inicia como crooner

1962. Grava o primeiro compacto

1964. Lança os LPs “Vou de Samba com Você” e “O Samba como Ele É”, fazendo sucesso com a faixa “Deixa Isso Pra Lá”

1965. Canta pela primeira vez com Elis Regina, com quem lançou o LP “Dois na Bossa” e apresentou o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record.

1966. Vence o festival da Record com “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, e lança “Dois na Bossa nº 2”.

1967. Lança “Dois na Bossa nº 3”

Década de 1970. Em 1971, lança “Festa para um Rei Negro”. A partir disso, lança pelo menos um disco por ano: “Com a Corda Toda” (1972), “Orgulho de um Sambista” (1973), “Abra um Sorriso Novamente” (1974), “Ao Vivo no Olympia de Paris” (1975), “Eu Sou o Samba” (1975), “Minha Hora e Vez” (1976), “Estou com o Samba e Não Abro” (1977), “Pisei Chão” (1978), “Antologia da Seresta” (1979) e “Couro Comendo” (1979).

Década de 1980. Começa com “Estou lhe Devendo um Sorriso”, e segue com“Antologia da Seresta nº 2” (1981) e “Alegria de um Povo” (1981), “Jair Rodrigues de Oliveira” (1982), “Carinhoso” (1983), “Luzes do Prazer” (1984), “Jair Rodrigues” (1985) e “Jair Rodrigues” (1988).

Década de 1990. Lança “Lamento Sertanejo” (1991), “Viva Meu Samba” (1994), “Eu sou… Jair Rodrigues” (1996), “De Todas as Bossas” (1998), “500 anos de Folia” (1999)

2000 até 2005. Lança “500 Anos de Folia Vol. 2” (2000), “Intérprete” (2002), “A Nova Bossa” (2004), “Alma Negra” (2005, com participação da filha)

2009. Lança “Festa para um Rei Negro”

2012. Participa de homenagens aos 30 anos de morte de Elis Regina

2014. Lança, em dois volumes, “Samba Mesmo”, com produção do filho, Jair Oliveira.

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