Mulheres contra a guerra

Em cartaz até domingo no festival, grupo português Peripécia retorna ao Brasil com “1325” para falar de paz

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Cena. Avós são personagens do espetáculo do grupo português
Miguel Meireles divulgacao
Cena. Avós são personagens do espetáculo do grupo português

A violência praticada durante a ditadura militar na Argentina originou dois movimentos semelhantes de luta por direitos humanos, capitaneados por mulheres. O mais conhecido são as Mães da Praça de Maio. Mas há também o das Avós da Praça de Maio, organizado por aquelas cujas filhas desapareceram grávidas ou com filhos pequenos, também raptados pelo regime.

Essas avós são as personagens condutoras de “1325”, espetáculo que o grupo português Peripécia Teatro apresenta hoje e amanhã, às 21h, e domingo, às 19h30, no Teatro da Biblioteca, pelo FIT-BH. Além delas, surge em cena uma lista de outras ativistas da paz. Como a polonesa Irena Sendler (1910-2008), assistente social que salvou a vida de 2,5 mil crianças judias em guetos de Varsóvia, durante o Holocausto.

O título do espetáculo faz referência à resolução 1325, pela qual a ONU, em 2000, pediu o aumento da nomeação de mulheres para cargos de tomada de decisão sobre prevenção e resolução de conflitos. “Há muito tempo queríamos abordar o tema da guerra e da paz”, diz o ator português Sérgio Agostinho.

“Chegamos a essas histórias através de um livro, que se chama ‘1325 Mulheres Tecendo a Paz’”, conta. A perspectiva pareceu estimulante. “Há uma diferença de gênero e ela pode ser muito positiva. Muitas vezes estamos habituados a fazer política e negociar de forma masculina, porque os homens dominam a política. Mas há mulheres – e homens também – que defendem abordar essas questões pelo lado feminino. Uma forma de ver a vida que transcende a política”, diz Agostinho.

Ele exemplifica com um texto da escritora espanhola Carmen Magallon, transcrito no programa do espetáculo, no qual se fala das avós da Guerra Civil Espanhola. “Enquanto seus filhos e maridos diziam para não acolherem os inimigos em casa, elas diziam que ninguém passaria fome ou ficaria sem cama para dormir. É uma perspectiva que põe a vida e a qualidade de vida acima de qualquer coisa”, relata.

Teatralidade. A Peripécia costuma criar os textos de seus espetáculos coletivamente. Começam pela escolha do tema e pesquisam o universo afim. “Depois, partimos para o trabalho de palco, ainda sem a linha narrativa, o roteiro ou os personagens. E tudo isso vai surgindo ao experimentar, improvisar, brincar o teatro”, diz o ator.

A forte teatralidade é uma característica marcante do espetáculo, forjada a partir de uma grande quantidade de peças de roupa sobre o cenário. “Essa ideia era plasticamente interessante e dá muito jogo para que possamos brincar nosso tipo de teatro. Gostamos de partir de um objeto que vá se transformando em outras coisas e dele criar toda uma narrativa. Além disso, muita roupa junta nos fazia lembrar de imagens de guerra, mortes e do Holocausto”, diz Agostinho.

“Brincar” é uma palavra que sai com frequência da boca do ator e revela seu pensamento sobre teatro. “Jogo e brincadeira são aquilo que gostamos de fazer. Não deixamos por isso de falar de coisas bastante sérias. Isso acontece muito nesse espetáculo: conseguimos brincar o teatro e refletir sobre assuntos importantes”, diz.

Cá e lá

Pelo Brasil. A primeira passagem de “1325” pelo Brasil foi no ano passado, quando participou do Festival de Teatro Ibero-Americano, em São Paulo, e esticou a estada até o Fringe – a mostra paralela do Festival de Curitiba, do qual foi um dos destaques.

Passagens anteriores. O Peripécia Teatro já trouxe ao país, anteriormente, os espetáculos “Ibéria – A Louca História de uma Península”, “Novecentos, O Pianista do Oceano” e “Vincent, Van, Gogh”.

2x1. O português Sérgio Agostinho fundou a companhia há dez anos, ao lado dos espanhóis Noelia Domínguez e Ángel Fragua.

Crise. Segundo Agostinho, há artistas com criações interessantes e inovadoras na cena teatral de Portugal hoje. Mas a situação financeira é difícil. “Há pouco dinheiro para tudo e, para teatro, muito menos”, diz. O governo do país investe diretamente na arte por meio de concursos.

Agenda

O quê. “1325”, da Peripécia Teatro

Quando. Hoje e amanhã, às 21h, domingo, às 19h30

Onde. Teatro José Aparecido de Oliveira (Teatro da Biblioteca. Pça. Liberdade, 21, Funcionários),

(31) 3337-9693.

Quanto. R$ 20 e R$ 10 (meia)

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave