Mães e filhos perfeitos do Facebook

Quem andou ou falou primeiro, quem é o bebê maior ou quem é a mamãe que tem o melhor médico: por que as mães se comparam tanto e porque isso é algo tão ruim para a maternidade

iG Minas Gerais | ANDERSON ROCHA |

FERNANDA NUNES / ARQUIVO PESSOAL
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O teste da farmácia aponta o sim. Instantaneamente, as pernas bambeiam e os dentões tomam conta da cara. Ser mãe é passo à frente na sociedade: elas tornam-se donas do mundo, com razão e merecimento. Talvez por isso (e pela alteração de hormônios, há que se dizer) a geração de um ‘pequeno ser’ mexa tanto com o psicológico delas: assim que se percebem genitoras, dão largada ao Grand Prix Materno: pareadas na pista, mamães lutam para descobrir quem é a melhor, quem tem o bebê maior, o médico mais conceituado, etc e tal. A partir daí, para algumas (que têm o ego inflado três vezes mais que a barriga), a coisa só piora.

É que, após nove meses, surgem novas disputas. É o dente que surgiu primeiro que o dos colegas; é o menino que andou mais cedo ou a mocinha que “já fala tudo desde que tem um ano”. Com as redes sociais, muito usadas para expor as fotos do jantar sofisticado de ontem à noite ou da viagem de Carnaval para Fernando de Noronha, as mães se unem para trocar experiências, aprender e ensinar e, algumas, para se digladiar. São as mães perfeitas do Facebook: aquelas que se mostram as melhores em tudo e do que todas, defensoras da maternidade como um conto de fadas, em que as dores, angústias e medos, inerentes ao processo, são ignoradas ou empurradas pra baixo do tapete.

A escritora e jornalista carioca Ale Garattoni, dona de blog homônimo, escreveu um texto sobre o fenômeno. Não é uma ironia ou crítica, ela explica, na atualização que fez no topo da postagem, devido ao rebuliço de comentários e visualizações da postagem 'As mães perfeitas do Facebook' (o texto você lê clicando aqui). http://alegarattoni.com.br/as-maes-perfeitas-dos-grupos-do-facebook/

"As mães perfeitas dos grupos do Facebook têm uma paciência inesgotável, infinita, profunda e sincera. Jamais ficam de mau-humor, nem mesmo ao passar um ano sem dormir por mais de duras horas seguidas. Jamais se incomodam com o choro sem motivo, sem diagnóstico. Jamais se aborrecem por não ter tempo para si. Jamais sentem vontade de colocar um fone de ouvido no volume máximo", descreve, no texto. Por fim, ela vai direto ao ponto: "As mães perfeitas dos grupos do Facebook aumentam - muito! - o tal lance da culpa materna, que assola todas as mães imperfeitas do mundo."

De acordo com Maria Cecília Schettino, psicóloga perinatal e autora do blog Maternidade no Divã (veja mais na arte), do Rio, a competição entre mamães faz parte da maternidade, já os filhos são um produto dos pais e, portanto, é natural que eles desejem que os pequenos sejam especiais e se destaquem. “Mais preocupante que a competição em si é o julgamento que acaba por dividir as mães em boas ou más”, alerta a especialista.

É esse julgamento que está presente, de forma velada ou não, nas postagens e comentários em redes sociais para mamães. Há mães que adoram (talvez por não por maldade) exibir como seus filhotes estão sendo criados, com uma extensa rotina de atividades (inglês, natação, ballet, boxe) ou o desenvolvimento da criança, como aquela que andou ou falou primeiro - como se quem o fizesse primeiro fosse “melhor” ou “pior”.

“No ocidente, principalmente, a sociedade é muito cruel com as mães. Nas mídias, a maternidade é mostrada como algo maravilhoso, como se o amor materno fosse instintivo, em que não há lugar para sentimentos negativos. Essas crenças (irreais!) geram muito desconforto e culpa nas mulheres que, ao sentirem raiva ou tristeza, sentem-se inadequadas e ‘menos mães’ do que aquelas que, superficialmente, só deixam transparecer o lado positivo dessa fase”, afirma Schettino.

Dica de ouro!

Não existe um manual! Tornar-se mãe não é algo que possa ser ensinado, garante a  psicóloga perinatal Maria Cecília Schettino. De acordo com ela, atualmente existem muitos sites e livros “excelentes sobre maternidade, mas as mães devem ser capazes de filtrar as informações e ponderar o que funciona na rotina delas, além de ficarem atentas ao que elas se sentem confortáveis de fazer”, explica.

“Eu diria para as mulheres tentarem se cobrar menos, pois a maternidade, como tudo na vida, tem um lado bom e um lado ruim. Os julgamentos e as cobranças só trazem sofrimento e culpa, podendo inclusive prejudicar a relação mãe-bebê”, finaliza.

Mãe humana “Ser mãe é se fuder no paraíso”(leia aqui) é o título de uma postagem da Fernanda Nunes, 29, escritora, blogueira e atleta de remo em Copacabana, no Rio, que defende a maternidade mais leve. A mãe do Bento, de um ano e seis meses, escreveu e publicou em seu site um relato corajoso sobre a culpa que muitas mães sentem por almejarem uma “perfeição” na maternidade, o que não existe. Segundo ela, as mulheres buscam soluções e métodos legais para educarem os filhos. Porém, nesse caminho (ingrato), acabam se perdendo.

Além disso, a escritora acredita que as mulheres tenham dificuldade de assumir que criar um filho é difícil, cansativo e doloroso. Para Fernanda, o medo de falar vem da possível taxação de não amarem os filhos. “Falo muito sobre a realidade que vivo no blog. Assim, acabo encorajando que mais mulheres falem sobre isso, desabafem e se sintam... normais”, diz. “Mesmo assim, volta e meia recebo comentários desaforados, julgando o meu amor pelo meu filho a partir dos meus desabafos”, complementa.

A esportista acredita que tudo isso seja fruto de machismo. “A maternidade fica toda por conta da mulher e é bom que seja feita sorrindo, sob o custo de ser taxada uma péssima mãe. Aliás, e continue sendo uma boa esposa, uma boa profissional e continue com o antidepressivo, por favor!”, afirma. “O dia em que meu filho ler meus textos não ficará assustado. Espero que minha educação deixe claro que ele é muito, muito amado, mas amado por uma humana, que tem limitações e fraquezas e que ainda assim fez o seu melhor para cuidar dele”, desabafa.

Mamãe conectada Comunidades para trocar experiências e rir de si mesma

Real Maternidade - a página, com mais de 112 mil seguidores, sugere que as mães vivam a maternidade de forma mais leve. “Venha compartilhar vivências, dividir as dores e as alegrias e debater a maternidade do jeito que ela é, sem mitos, tabus ou aquela idealização exagerada da figura materna”, diz a descrição da RM.  

Maternidade no Divã - o site apresenta o projeto de uma psicóloga “apaixonada pelo universo da maternidade”, como exibe a descrição da página, que tem mais de 1200 seguidores. O espaço é voltado para mães, gestantes, “tentantes” e todos os interessados.  

Maternidade da Depressão - fictícia, a página (73 mil seguidores) no Facebook traz humor à maternidade. “Sinta-se à vontade para vestir a carapuça”, diz o texto. Em uma das postagens, a vilã de novela mexicana Paola Bracho (A Usurpadora, exibida pelo SBT, na década de 90) diz: “Pareço boa mãe, mas finjo estar dormindo quando o bebê acorda na esperança do pai tomar iniciativa de levantar".

 

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