A que níveis a nação foi arrastada!

iG Minas Gerais |

Domingo, 4 de maio: “dies dominicu”. Como normalmente faço, às 7h já estava aos cuidados do silêncio do meu escritório, que me enchia de tranquilidade. É o que hoje em dia mais anelo. Como o conselheiro Aires, em quem me vejo com frequência, “a vida, mormente nos velhos, é um ofício cansativo”. Daí, prossegue, “exige sossego”. Daqui a pouco, tocará o interfone. Lá do térreo, o porteiro me avisará que os jornais do dia chegaram. Como sempre, peço-lhe que os mande pelo elevador. Abro logo “O Globo”. Folheio-lhe as primeiras páginas e dou com o artigo de Fernando Henrique Cardoso, cujos título e significado me povoam tanto o espírito que resolvi dar a este texto a mesma síntese que ele estaria a pensar e vem se tornando tema de minha insistente reflexão. Não por mim, mas pelos meus; me sinto velho e cansado. Na verdade, busco paz, à espera da minha hora. O Brasil, infelizmente, tornou-se fardo e fadiga, desorientação, uma espécie de território da mentira, da empulhação, do logro, do aproveitamento desonesto dos bens públicos, a ponto de o autor, que me inspirou a verbalizar as minhas sensações, titular o seu texto com desanimada exclamação: “A que ponto chegamos!”. O nosso ex-presidente, o melhor de todo o período republicano, afogado, porém, em lamentável emenda constitucional permissiva de reeleição, desgastou-se demais com a medida, em confronto aberto com as tradições do país, a qual nem os militares ousaram impingir-nos, e acabou desperdiçado (ah, meu Deus, como somos inclinados ao desperdício, não apenas carentes de boas poupanças, seja na esfera econômica, seja no campo político!). Estamos sem líderes fortes e experimentados para enfrentar o que de pior nos aterroriza: o lulopetismo atrevido e desafiador. Alerte-nos, pois, o despreparo absoluto dos atuais donos do poder, a notícia diária da corrupção incessante, os ataques dos saques que se alastram por todos os escaninhos do Estado, desse sem-fim de escândalos que nos indignam e revoltam diariamente. Nascido de um leito familiar envolvido secularmente com o processo político, nunca li, ouvi falar ou testemunhei virulência tão agressiva ao regime da lei e da moral pública como o que se verifica no Brasil; parece castigo. Só o povo, corpo eleitoral consciente, pode erigir e escolher lideranças para a cruzada de que precisamos. Se o titular da soberania não compreender essa responsabilidade, só nos restará sofrer o avanço inexorável da perdição. Será o que nos espera? Ou por outra, nos termos de severa inquirição de FHC, que deveria tornar-se um breviário a orientar a decisão crucial do nosso destino em outubro próximo: “Se, de fato, queremos sair do lodaçal que afoga a política e conservar a democracia que tanto custou ao povo conquistar, vamos esperar que uma crise maior destrua a crença em tudo e a mudança seja feita não pelo consenso democrático, mas pela vontade férrea de algum salvador da pátria?”. O Brasil ficou muito mais longe do que aquele com que uma noite sonhei.

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