Desprezo pela vida

iG Minas Gerais |

Houve quem recriminasse a exibição, em portais e TVs, das cenas do linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33. Ela foi confundida por populares com uma suposta sequestradora de crianças, ligada a bruxarias, de um bairro pobre no Guarujá (SP), e espancada até a morte. As imagens são realmente fortes e repugnantes; em alguns momentos, vira-se o rosto ou fecha-se os olhos involuntariamente diante de tamanho horror e crueldade. Mas assisti-las se faz importante (ou melhor, necessário), pois constatam-se a irracionalidade, a ignorância, a perda de capacidade de questionar, o desprezo pela vida, a ausência de amor dos dias atuais. Pela morte de Fabiane vão responder moradores identificados pela polícia nas imagens feitas no momento do crime. Mas, por essa ineficácia do Estado, pela desesperança generalizada, pela desigualdade social, por essa divulgação irresponsável de informações (não só por parte da imprensa), quem irá responder? “Quer prender todo mundo? A culpa é de todo mundo! A culpa é de ninguém! A culpa é da internet!”, justificou na porta da delegacia o ajudante de pedreiro Jonas Tiago, 27, amigo de um dos suspeitos detidos pela morte de Fabiane. Revoltado, confuso e assustado, tentava ao mesmo tempo culpar e inocentar os envolvidos por um ato bárbaro. Provavelmente, ele e outros agora devem estar se perguntando se, pela lógica de fazer justiça com as próprias mãos incentivada por setores da sociedade, também não mereçam ser punidos pela comunidade em uma espiral de violência sem fim. O termo “barbárie” parece estar até enfraquecido tantas as vezes em que recorremos a ele nos últimos tempos para tentar explicar atos desprovidos de humanidade. Por exemplo, torcedores arrancarem privadas do banheiro de um estádio para atirá-las na rua contra um grupo rival. “Barbárie!” Mas, e daí? É aparentemente contraditório o fenômeno do acelerado desenvolvimento tecnológico, característica dos nossos tempos, não ter sido acompanhado também por um avanço da razão frente a comportamento instintivos, animalescos. Mas, como já haviam alertado os frankfurtianos, a razão produzida pelo cientificismo contemporâneo é uma razão instrumental, obscurantista, usada para dominação e exploração, oposta a uma ideologia em outra época chamada de “iluminista”. A crise institucional do Estado brasileiro, com reflexo no dia a dia da população em todas as áreas, não é uma crise apenas de déficit da balança comercial, maus negócios da Petrobras, corrupção ministerial... É uma crise de valores, de esgotamento de um modelo de consumo, de abismo entre classes sociais, de acesso privilegiado a bens como educação e saúde por pequenas parcelas da população.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave